8 ou 80: Crise do Spurs é mesmo por causa das lesões?

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17/11/2008 | 17:13

Publicado por Redação

AVISO DO EDITOR: Esta coluna foi escrita antes de sexta-feira, 14 de novembro, quando o Spurs ainda tinha 2v-5d, antes de vitórias apertadas contra o Houston Rockets e Sacramento Kings no fim-de-semana.

Por Denis Botana

Um dos assuntos mais tratados pela imprensa estrangeira neste começo de temporada da NBA tem a ver com números, então lá vou eu tentar saber o que tem de verdade e o que tem de mentira nisso tudo.

O assunto é o San Antonio Spurs, ou melhor, a idade avançada do elenco de Gregg Popovich. Eles são, realmente, o time com maior média de idade na NBA, mas será que é esta a causa do mau começo da equipe? Ou será que é um de muitos outros fatores? Ou seria apenas a ausência de Ginóbili e agora também de Tony Parker?

Para analisar isso, fiz uma tabela comparativa. Nela estão listados dados deste início de temporada do Spurs comparados aos números da temporada regular dos outros anos ímpares quando o Spurs foi campeão, 1999, 2003, 2005 e 2007. Para comparar os times, escolhi elementos-chave de todas as campanhas vencedoras:

Média de idade: Todos os times campeões do Spurs eram experientes, veremos se o deste ano é muito mais velho.

Posses de bola por 48 minutos: O Spurs sempre foi conhecido pelo jogo cadenciado, este dado mostra quantas posses de bola o time tem por jogo. Um time veloz tem sempre mais posses de bola em média do que um time de ritmo lento.

Pontos por jogo e pontos sofridos por jogo: Média de pontos feitos e sofridos pelo time, o número básico para analisar a força ofensiva e defensiva de um time.

Rating ofensivo e defensivo: Calcula quantos pontos são feitos ou sofridos a cada 100 posses de bola, é uma maneira de poder analisar o poder ofensivo e defensivo de times que jogam em ritmos diferentes.

Formações titulares diferentes: Mostra se o time manteve durante toda a temporada a mesma formação ou se precisou fazer mudanças devido a contusões, suspensões, trocas ou variação de rendimento.

Aproveitamento de arremessos e de bolas de 3: Número básico para saber a qualidade ofensiva da equipe.

Rebotes, tocos e roubos por jogo: Números básicos para medir algumas características defensivas da equipe.

A primeira coisa que vemos é que este time do Spurs é mesmo mais velho que os outros, mas também não é difícil de perceber que não é tão mais velho assim. O time campeão de 1999, um time com alguns dos melhores números defensivos da história e uma campanha assustadora de 15 vitórias e duas derrotas nos playoffs, tinha praticamente a mesma média de idade. O time campeão em 2007, base desta atual equipe, não é nem um ano inteiro mais novo que o time atual. Colocar a culpa na idade do grupo e sugerir contratações de jogadores novinhos parece uma atitude simplista demais. Contratar alguns moleques de 20 anos faria a média de idade cair, mas quem seriam esses garotos? Eles têm as características que o Spurs precisa?

O Spurs tem problemas, o que parece fazer mais sentido é identificar estes problemas e contratar ou trocar por jogadores que resolvam, seja esse cara um quarentão ou um novato. Não tenho dúvida que com as atuações recentes do Fabrício Oberto, o Dikembe Mutombo seria muito bem vindo em San Antonio mesmo com seus 42 anos.

Acompanhando o jogo entre Miami e San Antonio, o jogo em que Tony Parker se contundiu, passou a impressão de que o Spurs se tornaria, sem sua dupla original de armação, um time veloz, já que naquela partida os armadores George Hill e Roger Mason lideraram uma correria que eventualmente acabava em arremessos de 3 pontos. Mas o que os números nos dizem é que este time do Spurs tem o ritmo de jogo mais lento entre todos os times comparados: são 85 posses de bola por jogo, contra uma pequena variação entre 89 e 90 das outras equipes. Isso pode indicar três coisas: A primeira é cautela, o Popovich não deve ter gostado daquela primeira exibição contra o Heat e mandou os armadores terem mais calma. A segunda é a falta de criatividade, muitas vezes o relógio de 24 segundos é gasto sem criação alguma, fazendo o time ter quantidade menor de posses; e a terceira é que o time está se focando em Tim Duncan. Times que tentam colocar a bola sempre dentro do garrafão têm um ritmo mais lento de jogo do que aqueles baseados em arremessos do perímetro.

Isso mostra uma limitação do Spurs na área da armação. Sem Parker e sem Ginóbili, o time fica menos criativo, com menos ameaças no perímetro e mais lento, dependendo mais de Tim Duncan. Esse é um problema até que óbvio e que deve durar até a volta dos dois armadores para a equipe, então aqui acho que não há muito com o que se preocupar.

A criatividade nos leva aos números ofensivos do time. São 94,3 pontos por jogo, o que coloca o Spurs na 23° posição na NBA. Mas ao ver logo ao lado dele na tabela, Rockets, Celtics e Raptors, é fácil de perceber que um ataque que não faz muitos pontos não é necessariamente um ataque ruim. Juntando esses pontos com o baixo número de posses de bola do time por jogo temos o “rating” ofensivo do Spurs, que é o 11° da NBA, o que não é nada vergonhoso. O time de 99 acabou a temporada regular também na 11° posição e o time de 2005 não ficou muito longe, foi o oitavo. Outra prova disso são as porcentagens de bolas de 3 e de arremessos em geral, que estão no mesmo nível, com mínima variação, com a dos times campeões da última década.

Até o número de bolas de 3 tentadas por jogo, que parecia exagerada nos últimos jogos, na verdade chamam mais a atenção pela qualidade das bolas (mais mal trabalhadas do que antes) do que pela quantidade. O time de hoje tenta em média 19 bolas de 3 por jogo, exatamente o mesmo número do time de 2007.

Então podemos deduzir que o ataque está sofrendo um bocado, principalmente na hora de decidir jogos, com a falta de criatividade, já que ninguém no elenco tem a qualidade de Ginóbili e Parker, mas que em geral o time está usando de um ritmo de jogo mais lento para conseguir números bem parecidos com os que sempre conseguiu.

Estará então o problema na defesa?

Sim. O maior patrimônio do Spurs na última década foi sua defesa e, neste ano, finalmente, ela está desmonorando. O número de pontos sofridos por jogo subiu muito em comparação aos times campeões. São 8 pontos a mais que o time de 2007 e 2003, 10 a mais que o de 2005 e 14 a mais que o time campeão em 1999.

E tudo isso, não podemos esquecer, com menos posses de bola por jogo, o que coloca o Spurs com um degradante “rating” defensivo de 111,1 pontos a cada 100 posses de bola. Apenas quatro times têm um número pior que esse na NBA atualmente. Dos quatro times campeões do Spurs, dois deles tiveram a melhor marca no rating defensivo, um ficou em segundo e a pior marca tinha sido a de terceira melhor defesa da liga. Ou seja, o Spurs sempre venceu em função da sua defesa.

Chegamos então em alguns outros números defensivos. Já disse em outra coluna (a primeira da série ‘8 ou 80′) que tocos e roubos não necessariamente dizem se um time ou jogador são bons na defesa ou não, mas os mesmos números são bem úteis quando você faz uma comparação entre o mesmo time ou jogador. Se um time mantém o mesmo elenco, características e filosofia de jogo, mas dá menos tocos, provavelmente a qualidade defensiva baixou. No Spurs da atual temporada, vemos números pífios de roubos e tocos por partida, são 2,7 tocos e 3,7 roubos por jogo; números que em outros times equivalem a soma de dois jogadores no Spurs são a soma de um elenco inteiro.

Hoje na NBA, apenas o Knicks dá menos tocos por jogo que o Spurs, que é o time que menos rouba bolas, 2 a menos que o penúltimo colocado, o Raptors.

A volta de Ginóbili e Parker já traria, em média, mais 2,5 roubos por jogo para o time e um número de insignificante de tocos, mais algumas características, principalmente do Ginóbili, de ajuda defensiva que não é contada com números. Isso já deve ajudar o time a melhorar um pouco seu desempenho. Mas será o bastante para fazer o Spurs sair da 26° posição e voltar a ser uma das 3 melhores defesas da liga? Não. O real problema do Spurs parece que não está na idade do elenco e nem na ausência dos dois armadores. Analisando todos esses números e somando com os jogos do Spurs, eu posso afirmar que os problemas do Spurs hoje se chamam Bruce Bowen, Fabrício Oberto e Kurt Thomas.

O Spurs não está muito mais velho do que antes, mas Bruce Bowen e Kurt Thomas estão. Oberto não está com 40 anos, mas está fora de forma – lidou com problemas de coração que o afastaram de parte da pré-temporada. O problema então não está no banco de reserva do Spurs que não ajuda, na verdade eles têm ajudado até demais na atual situação, o problema do time está nos titulares da posição 3 e 5. Seja qual dos dois pivôs que jogue ou Bowen, não estão dando conta do recado.

Na temporada 2006-07, a do último título do Spurs, a dupla que tinha melhores números de +/- (plus/minus, o número que faz um saldo de pontos quando tal grupo de jogadores estava junto em quadra) era a dupla Duncan e Bowen. Não era Duncan e Parker ou Ginóbili, era com Bowen. Porque eram dois dos melhores defensores da liga atuando juntos, um parando o melhor atacante do perímetro e o outro parando o garrafão. Nesta temporada, Bowen não teve sucesso contra nenhum principal atacante adversário e sua contribuição para o sucesso do time era maior do que muita gente imaginava.

Se o Spurs quer continuar sua sequência de títulos em anos ímpares, precisa esperar com calma os dois armadores voltarem de contusão e conseguir alguma troca ou contratação de free agent que resolva o buraco defensivo deixado por Bowen e pela dupla Oberto e Thomas. Para o garrafão, a minha sugestão seria deixar o time ainda mais velho, com o Mutombo, que jogou demais no ano passado pelo Rockets e que dividiria minutos com os atuais donos da posição. É uma boa saída até o ano que vem, quando o nosso Tiago Splitter poderá chegar a San Antonio e assumir a posição.

Substituir Bowen é mais difícil, mas necessário se o time tem pretensões de título. Gregg Popovich deve estar se perguntando porque não conseguiram pegar o Shane Battier do Rockets naquela troca estranha do Luis Scola. Esquisito dizer isto, mas o Spurs, time que era todo-poderoso e que parece tão frágil atualmente, está a um Shane Battier de voltar a assombrar a NBA. (Nota do editor: Popovich tirou Bowen do time titular e lançou Ime Udoka, e aparentemente a mudança deu certo: desde que Udoka entrou, o Spurs venceu três de quatro partidas. No jogo do último domingo, 16/11, contra Sacramento, Udoka deu lugar a Michael Finley e Bowen continuou no banco).

Redação BasketBrasil Uma equipe? um time. Somos o BasketBrasil.
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Comentários

1 Comentário »

  1. Comentário por Adriano Albuquerque — November 17, 2008 @ 5:18 pm

    acertou em cheio, hein, Denis? saiu o Bowen, o Spurs voltou a vencer…

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