Publicado por Redação
Nossa coluna estatística está de volta, e o mestre Denis Botana destrincha o caminho da seleção americana masculina de basquete rumo à medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Pequim-2008 e desvenda a fórmula para acabar com a invencibilidade do “Redeem Team”.
Por Denis Botana, do blog Bola Presa
A seleção americana finalmente está de volta ao topo do basquete mundial. Depois de dois campeonatos mundias e os Jogos Olímpicos de Atenas-2004 fora até da disputa da final, os americanos voltam a sentir o gosto do ouro. Nenhuma dúvida de que eles foram o melhor time da competição, ganharam todos os jogos e a média de margem de vitória foi de 28 pontos. Até jogos que chegaram a ficar complicados, como contra a Austrália e a Argentina, acabaram com margens grandes de pontos.
Mas depois de uma final histórica contra a Espanha ficou no ar a impressão de um esporte mais real, onde existe um time soberano mas não imbatível. Os Estados Unidos são a equipe mais forte mas podem, vez ou outra, perder. Para achar os pontos fracos dessa seleção quase perfeita e para enaltecer as enormes qualidades, vamos analisar aqui os números das partidas mais importantes do time americano, contra as seleções mais fortes. Serão vistos a revanche contra a Grécia na primeira rodada e os confrontos de quartas, semi e final, contra Austrália, Argentina e Espanha respectivamente.
Iremos começar com alguns números-chave da própria seleção americana contra a Grécia.
O jogo contra os gregos foi uma revanche da semi-final do campeonato mundial de 2006 quando a Grécia bateu os EUA.
Aqui estão os números daquele jogo:
Interessante ver que em 2006 os EUA arremessaram 66 bolas, apenas uma a menos que no confronto de 2008. Nas bolas de 3 os EUA chutaram 8 a menos desta vez e arremessaram 11 lances livres a mais. Os erros aumentaram e as assistências também.
Em primeiro momento, parece que os números são assustadoramente parecidos, e a verdade é que eles são parecidos mesmo. Aconteceram até mais erros em 2008 e os lances livres, desastrosos em 2004, quando erraram 14 dos 34 cobrados, não foram muito melhores, com 10 errados em 23 tentativas. A pura verdade é que ofensivamente, contra a mesma defesa por zona da Grécia, os Estados Unidos operaram de forma parecida, tomaram decisões parecidas e “apenas” melhoraram o aproveitamento, o que pode ser interpretado de várias formas, pode-se dizer que os EUA ainda não aprendeu a vencer a defesa grega ou que sempre soube e que o jogo do Mundial de 2006 foi apenas um dia de azar, de má pontaria americana.
A enorme diferença no resultado dos dois jogos, na verdade, está nos números da Grécia:
A Grécia arremessou mais bolas, o que pode mostrar que eles tentaram acelerar um pouco o ritmo do jogo depois que começaram a ficar atrás no placar. Mas mesmo chutando 7 bolas a mais, foram 9 acertos a menos. E com o mesmo número de bolas de 3 tentadas, eles acertaram a metade. Também chutaram 15 lances livres a menos e cometeram 14 desperdícios de bola a mais. A diferença é gritante. Se muita gente deu valor aos EUA terem aprendido a atacar melhor as defesas por zona, deveriam dar o triplo de valor ao fato deles terem aprendido a defender com mais eficiência, porque foi na defesa que eles venceram este jogo, forçando os gregos a muitos desperdícios de bola e poucos passes certeiros, o que facilitava os contra-ataques americanos, jogadas com maior porcentagem de acerto.
Se a defesa americana forçou os gregos a inúmeros erros, não foi exatamente igual contra Austrália e Argentina. Com armadores em grande forma e times entrosados, os dois times tiveram 11 e 16 desperdícios de bola respectivamente, nada muito diferente da própria seleção americana, aliás o número de erros dos australianos foi baixíssimo, algo digno de atenção.
A diferença gigantesca no placar, que fica ainda mais impressionante por ter sido construída, em ambos os casos, toda no segundo tempo. Aqui estão os números de Austrália e Argentina:
Os dois times tentaram mais de 20 bolas de 3 pontos, a Austrália teve um bom 37% de aproveitamento, mas as bolas de 2 não foram no mesmo nível, com um pífio aproveitamento de 20 de 43 tentativas. Já a Argentina teve um péssimo aproveitamento, quase 25%.
Aqui os números americanos:
O primeiro número que salta aos olhos é o aproveitamento americano contra a Austrália. Os australianos chutaram apenas 6 bolas a menos no total e acertaram 13 a menos, é muita diferença de aproveitamento. E foi tudo nas bolas de 2 pontos, já que nas de 3 os americanos acertaram 2 a mais tentando 2 a mais.
Contra a Argentina os americanos acertaram 4 bolas de 3 a mais, mas precisaram tentar 8 a mais para isso, o aproveitamento ficou na casa dos 30%, nada excepcional, e desta vez a diferença no total de bolas convertidas foi de apenas 2. Pode-se dizer então que a grande diferença a favor dos americanos foi na linha de lance livre, onde conseguiram 12 pontos a mais que os argentinos. Com a tabela abaixo é possível ver como os americanos tiveram boa parte das suas tentativas de arremesso na linha do lance livre, o arremesso mais fácil do jogo.
Com 17% dos arremessos, os lances livres foram o terceiro tipo de arremesso mais tentado pelos americanos, atrás apenas das bolas de 3 pontos e das jogadas finalizadas no garrafão. A bola de 3 pontos, aliás, foi a jogada mais tentada pelos americanos no jogo.
O arremesso de fora do garrafão que não conta como o de 3 pontos é a bola de meia distância, alguns críticos já dizem que na NBA se usa cada vez menos essa jogada, que ou os jogadores batem para a cesta para finalizar no garrafão ou chutam de 3 pontos. A teoria parece válida para a seleção também, já que apenas 4% das bolas acabou em jogadas de meia distância. A Argentina, em compensação, teve 19% de seus arremessos dessa forma, muito porque essa é a principal jogada de Luis Scola, principal jogador do time depois que Ginóbili saiu machucado.
Após a vitória sobre a Argentina os EUA estavam na final e era a hora de enfrentar a Espanha, um time diferente, conhecido por jogar também em velocidade. Aqui os números dos dois times na final:
Parece mentira, mas não é. A Espanha foi arrasada pelos EUA na primeira fase do torneio e parecia que era porque o estilo dos dois times não batiam a favor dos espanhóis. O estilo rápido, agressivo e com defesa fraca era tudo o que os americanos queriam para forçar erros e puxar contra-ataques. Mas não foi exatamente isso que se viu.
Com 65 arremessos tentados, a final foi o jogo em que os americanos menos arremessaram. Os 74 arremessos dos espanhóis foram o máximo que os americanos sofreram durante todo o torneio olímpico. Por incrível que pareça, a Espanha, com toda sua agressividade, conseguiu forçar o seu ritmo e diminuir o ritmo americano.
O mérito espanhol foi esse, o americano foi saber aproveitar melhos a menor quantidade de chutes para a cesta. Com 9 arremessos a menos, eles acertaram 1 a mais, além de acertar mais bolas de 3 pontos e de cobrar mais lances livres. Mas os lances de um ponto dos americanos foram problema mais uma vez; apesar de tentar 9 bolas a mais que os espanhóis, acertaram apenas 4 a mais. Mas mesmo cobrando menos lances livres, pode-se dizer que os espanhóis foram mais agressivos e atacaram mais a cesta, como mostram os números abaixo:
Ao contrário do jogo contra a Argentina, os lances livres ficaram mais próximos, já os espanhóis, com sua fraca defesa, permitiram mais contra-ataques que os argentinos. A maior diferença entre os dois adversários dos EUA está nas bolas de fora do garrafão. Assim como os EUA, a Espanha também chuta pouco de meia distância, mostrando um estilo de jogo bem parecido com o norte-americano.
Se mais uma vez os Estados Unidos, mesmo fugindo à sua tradição, foi o time que mais tentou bolas de 3, a Espanha surpreendeu com a quantidade de bolas arremessadas no garrafão, quase 60%. A cada 10 arremessos dados pelos espanhóis, 6 eram uma bandeja ou jogada de pivô dentro da área pintada. O dado pode mostrar uma agressividade e talento para a coisa dos espanhóis, mas também uma cautela da defesa americana. Com problemas de faltas em seus principais jogadores desde o primeiro período, os americanos acabaram até cedendo poucos lances livres para a quantidade de vezes que os espanhóis estiveram dentro do garrafão.
O que se pode concluir de todos esses números é que os Estados Unidos, mesmo usando pouco o seu especialista Michael Redd, usou as bolas de três como válvula de escape. Em todos os jogos contra defesas mais fortes, eles começaram a disparar de longe e se não tiveram sucesso com suas bolas de 3 durante toda a competição, tiveram no jogo mais complicado, a final. Nas outras partidas, quando a bola de longe não caía, os americanos abusaram das bolas dentro do garrafão, conseguindo bater inúmeros lances livres. Somando a experiência de todas as equipes na competição, a estratégia mais lógica a ser seguida para bater a ótima seleção americana é a de ser agressivo como a Espanha foi na final e como a Grécia foi no Mundial de 2006.
Para segurar o ímpeto americano no ataque pode-se fazer uma zona, forçando as bolas de 3. A Argentina e a Grécia fizeram isso e tiveram relativo sucesso; se o resultado final não deu certo, pelo menos conseguiram manter os números americanos próximos aos da derrota de 2006 no Mundial do Japão. Esperamos então um time com a estratégia grega, os poucos erros da Austrália, a defesa argentina e o ataque espanhol para conseguir bater as estrelas norte-americanas. Impossível não é, mas é muito difícil de acontecer.
“Plus-Minus” na Olimpíada
Para quem não sabe, “plus-minus” é como é chamada aquela estatística conhecida pelo sinal “+/-”, ela conta quantos pontos são feitos e sofridos pela equipe quando determinado jogador estava em quadra. Se um jogador de um time que perdeu por 20 pontos jogou apenas um minuto e nesse minuto seu time fez 4 pontos e sofreu 2, seu +/- será de +2.
A tabela abaixo mostra o +/- de jogadores que tenham disputado pelo menos 100 minutos de jogo durantes os Jogos e tem os números ajustados para 40 minutos. Então se um jogador teve um total de +200 totais em 160 minutos totais jogados, ele terá +50 por quarenta minutos, que é a duração de um jogo. Então pode-se dizer, sabendo que nem tudo no basquete se traduz em números, que são os jogadores que mais renderam para os seus times.
1. Chris Bosh (EUA) +43
2. Dwyane Wade (EUA) +42
3. LeBron James (EUA) +32
4. Chris Paul (EUA) +31
5. Deron Williams (EUA) +28
6. Kobe Bryant (EUA) +26
7. Jason Kidd (EUA) +23
8. Carlos Jiménez (ESP) +22
9. Carmelo Anthony (EUA) +21
10. Manu Ginóbili (ARG) +21
11. Dwight Howard (EUA) +19
12. Simas Jasaits (LIT) + 15
13. Ricky Rubio (ESP) +15
14. Jorge Garbajosa (ESP) +15
15. Pau Gasol (ESP) +14
16. Ioannis Bourousis (GRE) +14
17. Mindaugas Lukauskis (LIT) +12
18. Andrés Nocioni (ARG) +12
19. Rudy Fernández (ESP) +12
20. Alex Mumbrú (ESP) +12
A coisa mais interessante dessa lista é que na verdade ela não revela os melhores jogadores, mas sim as melhores combinações de time. Dá pra reparar que jogadores que atuavam juntos têm números bem parecidos e como muita gente já tinha percebido, o time reserva americano, que tinha Chris Paul, Chris Bosh, Deron Williams e Dwyane Wade era a melhor combinação do “Redeem Team” na maioria dos jogos.
Também é possível ver uma das combinações espanholas toda junta, com Rubio, Garbajosa, Gasol e Rudy, mas a surpresa mesmo é ver o discreto Carlos Jiménez com o melhor número entre os espanhóis. O time titular americano, com Kobe, Kidd, Carmelo e LeBron, mesmo tendo o jogador do Cavaliers na 3° posição, no geral fica com números piores que o do time reserva. O que pode ser qualidade maior dos reservas pode ser também porque os titulares descansam mais quando o jogo já está ganho, depende da análise.
Fontes:
HoopsHype: www.hoopshype.com
APBR Metrics, Danielcz: http://www.sonicscentral.com/apbrmetrics/viewtopic.php?t=1871&postdays=0&postorder=asc&start=0
Redação BasketBrasil
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