8 ou 80: Roubos e tocos e suas importâncias na defesa

Publicado em: 8 ou 80, Colunas
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6/02/2008 | 15:12

Publicado por Adriano Albuquerque

Começa aqui a nova coluna do BasketBrasil, “8 ou 80″, e quem vai fazê-la sou eu, Denis, um dos editores do Bola Presa. Mas aqui não teremos piadas, jogadores ruins e respostas mal-humoradas, muito pelo contrário, vamos para o lado mais frio do jogo de basquete. Trataremos de estatísticas, médias e todos os números que inundam a NBA. O que não falta por aí são sites recheados de números sobre todos os times e jogadores. Mas o que são esses números? O que eles mostram? O que eles dão a entender? E isso o que eles dão a entender é sempre verdade? Bom, em resumo, às vezes os números acertam em cheio e às vezes são apenas uma grande enganação. É 8 ou 80.

Para começar, vamos falar de defesa. No fim da temporada, quando começa a disputa pelos prêmios individuais, sempre são usados como argumentos alguns números. Para MVP se fala do número de vitórias do time, do número de pontos do jogador, às vezes do número de pontos que ele marca em momentos decisivos. Para o jogador que mais evoluiu se compara todos os números possíveis do ano anterior com o atual, para o de técnico usa-se o número de vitórias da equipe e por aí vai. Mas na hora de eleger o melhor defensor a discussão fica mais acalorada. Afinal, que números podem mostrar quem defende melhor?

Os números básicos de defesa são os de roubos, tocos e rebotes defensivos. São os três que chamam a atenção na tábua de estatística para a performance defensiva de um jogador, e, como vimos, isso conta muito na hora de se ganhar um prêmio. Como exemplo podemos ver Ben Wallace, o jogador que, junto com Dikembe Mutombo, são os únicos a ganhar 4 prêmios de melhor defensor da temporada. E, não por coincidência, Wallace é o único jogador na história da NBA a conseguir 1.000 rebotes, 100 roubos e 100 tocos em 4 temporadas consecutivas. Mas calma, não quero dizer que Ben Wallace ganhou os prêmio só porque tinha os números certos, ele é, sem dúvida, um grande jogador de defesa, apenas ver alguns jogos dele nos bons tempos de Pistons dizem mais do que qualquer coisa.Porém, quando Wallace ganhou esses prêmios, quem eram seus principais concorrentes? Na maioria dos anos foram Bruce Bowen, Tim Duncan, Andrei Kirilenko e Ron Artest. E o único a conseguir um troféu de melhor defensor foi Ron Artest, em 2004 (ironicamente o ano do único título de campeão da NBA de Wallace). Agora, será que Ben Wallace era tão superior ou os números falaram mais alto na hora da dúvida?

Eu voto na segunda opção. Wallace era claramente um dos melhores defensores da liga, mas Duncan estava no mesmo nível, assim como Bowen e Artest. Na dúvida, entra uma grande ironia: como a defesa é algo difícil de ser medido pelos números, na dúvida os números servem como desempate. Então na dúvida entre Bowen e Wallace, o peso dos 15 rebotes e mais de 2 tocos falam mais alto do que as médias de Bowen, que nunca passaram dos 4 rebotes e em apenas uma temporada (97-98, em Boston) passou de 1 roubo por jogo. Artest, por sua vez, apesar de ter características defensivas parecidas com as de Bowen, um grande marcador no 1-contra-1, tinha um grande trunfo, que era o de chamar a atenção por seus roubos de bola, 2,1 no ano em que ganhou o prêmio e até 2,8 em 2001-02.

Repito mais uma vez que acho merecido que Wallace seja reconhecido como um dos maiores defensores de todos os tempos, mas reafirmo que se não houvesse uma obsessão pelos números, ele tanto teria ganhado o título menos vezes quanto teria também, poe sua vez, sido mais bem reconhecido no Bulls, em que na sua primeira temporada em Chicago foi muito bem na defesa mas não foi reconhecido pois suas médias de rebotes, tocos e roubos caíram.

Para mostrar a enganação que alguns desses números mostram, podemos pegar números dessa temporada. Os dois times que mais roubam bolas na liga são Golden State Warriors e Denver Nuggets. O Warriors é o time que mais toma pontos e o Nuggets é o sexto que mais toma pontos. No Denver, Allen Iverson e Carmelo Anthony estão entre os 25 melhores ladrões de bola (quinto e vigésimo quarto, respectivamento). Isso deixa bem claro o quanto roubos não são sinônimo de boa defesa num time.

Isso acontece porque os dois times citados, tanto Warriors quanto Nuggets, são times que se arriscam muito na defesa, eles buscam o roubo de bola a qualquer custo, tentando interceptar linhas de passe e dobrando em jogadores com menos habilidade em controlar a bola. O objetivo é conseguir o turnover, que por sua vez vira um contra-ataque, principal arma de ambos os times. Porém, tentar interceptar um passe e errar o alvo deixa o jogador completamente fora de sua posição de defesa, fazendo com que, pelo menos por alguns momentos, o time adversário tenha uma vantagem numérica que geralmente é convertida em pontos ou acaba em falta. Culpa da defesa mal posicionada, o Denver é o time que mais comete faltas na liga hoje. Não é por acaso também que o Denver é o time que mais sofre assistências, quesito no qual o Warriors também é o quarto colocado.

No quesito tocos, os dois times se separam. O Nuggets é o líder com 7,1 tocos por jogo, enquanto o Warriors chega perto do fim da lista com 4,4. E como dois times que têm características defensivas tão parecidas ficam tão distantes nesse quesito? É aí que o lado individual faz toda a diferença. E é depois de analisar tantos números que vemos os números que valem. Marcus Camby é o nome da diferença, ele é o líder da NBA em tocos no momento e atual ganhador do prêmio de melhor jogador de defesa da liga. O Denver se sente à vontade para atacar as linhas de passe em parte porque confiam em seu grande pivô, que segura, em muitas vezes, a barra lá atrás. O Warriors não tem um cara como esse e, talvez, seja esse cara a diferença que faz o Warriors ser a pior defesa e o Denver só a sexta. Vocês podem estar rindo agora, dizendo que grande coisa ser a sexta pior defesa, isso ainda é ruim, e eu concordo, mas o que esses números mostram é a diferença que Marcus Camby faz e isso mostra o quanto seu enorme talento acaba sendo até desperdiçado pelo Nuggets.

Em um esquema que o favorecesse um pouco mais, um pouco mais voltado para defesa, Camby poderia fazer ainda mais diferença. Diferença essa que pode até não se transformar em números, já que inúmeros tocos seus são resultados de bandejas que os outros times só tentam porque o caminho está livre. O Spurs, exemplo vencedor de defesa, é o quarto time com menos tocos na NBA, e não é por falta de caras pra dar conta do serviço, Duncan é muito bom nisso, mas o que acontece é que o Spurs não oferece o garrafão para que as bandejas sejam bloqueadas. Contra o Spurs os times acabam sempre ficando no jumper de meia distância, bem marcado e bem incomodado. Incomodado pelo Bowen, geralmente.

Nesse fim de temporada, quando você for dar seus pitacos em quem deve ser o melhor jogador de defesa, não ignore os números só porque eles às vezes mentem, eles não mentem, eles só tentam nos enganar um pouco, fazer a gente pensar. Às vezes apenas assistir alguns jogos da sua equipe ou daquele jogador em especial com esses números na cabeça, ou só fazer uma relação entre vários números, é o suficiente para arrancar a verdade deles.

Outra coisa, o jogador de defesa do ano é decidido por números sim. Os jornalistas votam em cinco jogadores, em ordem de preferência e cada posição vale um certo número de pontos, o jogador com mais pontos vence. Esses números nos perseguem por toda parte na NBA.
 

Adriano Albuquerque Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
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