Na coluna da semana passada eu comentei sobre John Hollinger quando falei sobre as estatísticas de eficiência ofensiva e defensiva. Mas Hollinger tem muito mais material do que isso, ele é um dos mais renomados jornalistas da NBA atualmente e um dos mais, senão o mais, quando o assunto é números e estatísticas. Hoje, gostaria de falar sobre um número criado por ele que pretendo usar bastante daqui pra frente: o PER, ou “Player Efficiency Rating”, ou seja, uma forma de medir a eficiência de um jogador. Será que dá pra saber, com um número apenas, tudo o que um jogador rende em quadra?
Para se chegar a esse número, usa-se uma fórmula muito, muito complicada. É complexa, longa e por isso mesmo, difícil de se questionar. Eu demorei um bocado de tempo para entender e ainda não me sinto totalmente à vontade diante dela. Pretendo, um dia, ser capaz de entendê-la profundamente o bastante para poder dar meus pitacos sem medo de falar besteira. Mas, por enquanto, vamos nos preocupar em compreendê-la um pouco:
A fórmula de PER sem seus ajustes (uPER) é:
uPER = (1 / minutos) *
[ 3 pontos
+ (2/3) * ASST
+ (2 - fator * (ASSTS do time / Arremessos certos do time)) * Arremessos certos
+ (Lances-livres *0.5 * (1 + (1 - (ASSTs do time / Arremessos certos do time)) + (2/3) * (ASSTs do time / Arremessos certos do time)))
- VOP * Turnovers
- VOP * DRB% * (Arremessos tentados - Arremessos feitos)
- VOP * 0.44 * (0.44 + (0.56 * DRB%)) * (Lances Livres tentados - Lances Livres feitos)
+ VOP * (1 - DRB%) * (Total de rebotes - Rebotes Ofensivos)
+ VOP * DRB% * Rebotes Ofensivos
+ VOP * Roubos
+ VOP * DRB% * Tocos
- Faltas * ((Lances Livres de toda NBA / Número de faltas de toda NBA) - 0.44 * (Lances Livres tentados de toda NBA/ Faltas de toda a NBA) * VOP) ]
E considerem:
Fator = (2/3) - (9,5 * (Assistências de toda liga/Arremessos certos de toda liga)) / (2* (Arremessos certos de toda liga/ Lances Livres de toda liga ))]
VOP = [Pontos de toda liga /(Arremesos tentados de toda liga - rebotes ofensivos de toda liga + Turnovers de toda liga + 0,44 * Lances Livres tentados em toda liga)]
DRB = [Total de rebotes da liga - Total de rebotes ofensivos da liga) / Total de rebotes da liga]
Aí para ajustar, você usa a estatística de "Pace", a do ritmo de jogo, do número de posses de bola por jogo, que eu citei também na coluna da semana passada.
PER Ajustado = [uPER * ('pace' de toda liga / 'pace' do time do jogador)] * (15/uPER de toda liga).
OK, a parte mais difícil já foi e sim, o John Hollinger é doido. Mas, vendo com calma, dá pra perceber a lógica que ele quis buscar com tudo isso. Primeiro ele usa todos os números individuais positivos possíveis, as assistências, pontos, bolas de três pontos, rebotes ofensivos, defensivos, roubos, tocos e arremessos certos. Depois também usa todos os números negativos, os arremessos errados, turnovers e faltas. Para completar, ele utiliza os minutos do jogador e os números gerais da liga para nivelar todos os jogadores. Como último passo, ele utiliza o "pace", o ritmo de cada time, para que os jogadores que jogam em equipes de velocidade alta se beneficiem com os números altos conseguidos por elas.
O que pode ser questionado são os números arbitrariamente adotados por Hollinger para dar o valor devido a cada quesito. Sabemos que um ponto não tem o mesmo valor de um toco, por exemplo. Um toco é muito mais raro e difícil de se conseguir, enquanto pontos se fazem aos montes. No decorrer de toda a fórmula vemos coisas multiplicadas por 2, multiplicadas por 2/3 ou por 0,44, tudo isso para dar o valor devido a cada um dos quesitos. Nessa parte, admito, não sei se são os melhores números escolhidos, mas vamos, por enquanto pelo menos, confiar totalmente na fórmula de Hollinger.
O PER parece, a princípio, o sonho de todo mundo aficcionado por números no esporte, achar um número que sozinho engloba tudo o que o esporte tem, um número que diz quem é melhor, um número que serve para armadores, alas e pivôs, um número que não vai favorecer aquele cara que entra, joga um minuto, acerta uma bola de 3 e vai embora e nem aquele cara que só porque é fominha consegue 20 pontos e 10 rebotes em um jogo. Mas nem tudo é um mar de rosas, e o próprio John Hollinger fala sobre os defeitos de sua teoria e sobre como ela não deve ser utilizada.
Ele primeiro deixa bem claro que não é um número feito para definir simplesmente quem é melhor; não é tão simples, é apenas um número feito para enriquecer tal discussão, para dar argumentos, para mostrar algumas coisas, não para definir. Outra coisa que o PER não resolve é justamente o que nenhum número em nenhum esporte jamais resolveu, como bom posicionamento e liderança. Também não é capaz de medir no basquete coisas como desvios de bola que não contam como roubos e uma boa defesa homem a homem, coisa que faz com que caras como Bruce Bowen e Shane Battier não se destaquem nesses números, ainda que sejam conhecidos como bons defensores mesmo sem conseguirem tocos ou roubos.
Não podemos esquecer também que essa não é a primeira estatística criada para medir a eficiência geral de um jogador da NBA. O próprio site oficial da liga tem seu método de medir eficiência, que é bem mais simples que o PER, vejam só:
((Pontos + Rebotes + Assistências + Roubos + Tocos) - ((Arremessos tentados. - Arremessos feitos) + (Lances Livres tentados. - Lances Livres feitos) + Turnovers))
Muito mais simples que o de Hollinger e acho que bem básico, é o que qualquer um pensaria na hora de fazer um numero geral como o de eficiência. Hollinger foi mais longe tentando corrigir os erros que esse número poderia trazer. Essa estatística, por exemplo, favorece os reboteiros. Analisando a liga ano a ano e até apenas vendo uma partida de basquete é possível ver como é bem mais fácil pegar 5 rebotes do que dar 5 assistências, e já que não há nenhum compensador na fórmula, quem pega rebotes é favorecido.
Mas vamos aos resultados, quem o PER diz que é melhor na liga até agora e quem o ranking de eficiência da NBA.com diz que são os que mais contribuem até agora? Será que existe muita diferença no fim das contas?
Top 10 - PER temporada 07-08 até agora:
1- LeBron James - 30,07
2- Chris Paul - 27,87
3- Amaré Stoudemire - 27,19
4- Manú Ginóbili - 25,50
5- Chris Bosh - 25,15
6- Kobe Bryant - 25,00
7- Tim Duncan - 24,76
8- Kevin Garnett - 24,66
9- Dirk Nowitzki - 24,58
10- Dwight Howard - 24,11
Novatos: O novato mais bem colocado, por mais incrível que pareça, é Carl Landry do Rockets, em 12o lugar com 24,05.
Top 10 - Ranking de eficiência da NBA.com
1- LeBron James - 31,02
2- Dwight Howard - 28,16
3- Amaré Stoudemire - 27,66
4- Chris Paul - 26,93
5- Kobe Bryant - 26,45
6- Dirk Nowitzki - 25,61
7- Yao Ming - 25,53
8- Tim Duncan - 25,50
9- Carlos Boozer - 25,40
10- Kevin Garnett - 25,37
Novatos: Aqui o novato mais bem colocado é Al Horford, com 15,89. Carl Landry é o quinto.
Comparando as duas listas dá pra ver as diferenças entre cada uma das fórmulas. Como disse anteriormente, quem tem bom rebote é favorecido no ranking da NBA.com, logo, o líder de rebotes na NBA, Dwight Howard, pula do décimo lugar em PER para o segundo lugar. Já LeBron James não perde o primeiro lugar por também se destacar como um bom reboteiro. O duelo entre Amaré e Chris Paul pelo terceiro lugar pode explicar em que quem criou a fórmula da NBA.com estava pensando. Os dois quase empatam porque têm números parecidos em pontos e Amaré vence em rebotes e tocos com quase a mesma vantagem numérica que Paul vence em roubos e assistências.
Onde é possível ver como o PER se destaca nas pequenas coisas é na disputa entre os armadores. No PER, Chris Paul é o melhor armador e na NBA.com também, não há o que se discutir nisso, mas no PER o segundo colocado é o espanhol José Calderón, em 18o, com Nash em 19o. Na NBA.com, Nash continua como 19o e Calderón cai para 43o, isso porque Calderón não se destaca em pontos, roubos ou tocos, mas se destaca no que um armador deve se destacar e o PER reconhece isso. Outro exemplo bom é Manú Ginóbili, quarto colocado no PER e apenas 30o na NBA.com, mais uma vez culpa dos números totais, que nunca foram o forte de Ginóbili, mas todos sabemos o quanto ele é valioso para o Spurs e, com toda aquela fórmula, o PER reconhece isso.
Mas o PER perde algumas batalhas. A mais clara é a 12a posição de Carl Landry. O cara está fazendo um bom trabalho na ausência de Yao Ming, tem aproveitado suas chances, mas ficar entre os 15 melhores é demais. Nenhum time preferiria ele a Pau Gasol, Al Jefferson, Steve Nash, Dwyane Wade, dentre outros. Podemos colocar essa culpa em alguma falha na parte de minutos da fórmula, já que Landry faz bastante coisa para pouco tempo em quadra, mas nunca provou se pode ter números altos com minutos altos. De resto, o Top 10 das duas listas é bem parecido, com pequenas mudanças de posição, mostrando uma elite de jogadores da NBA que parece que sempre vão se destacar não importando as pequenas variações de critério.
Um outro diferencial a favor do PER é a divertida lista criada por John Hollinger para se ter uma noção de quanto uma temporada foi boa para um jogador baseado apenas em seu PER. É possível até saber o que aconteceu com ele, se foi All-Star, MVP, candidato a MVP ou coisas assim, com pouca margem de erro.
35 pontos - Um ano histórico
30 pontos - Principal candidato a MVP
27,5 pontos - Forte candidato a MVP
25 pontos - Candidato fraco a MVP
22,5 pontos - Um All-Star
20,0 pontos - Um quase All-Star
18,0 pontos - Uma segunda opção sólida em seu time
16,5 pontos - Terceira opção em seu time
15 pontos - Um bom jogador
13 pontos - Está na rotação da equipe
11 pontos - Lutando para ter minutos em quadra
9 pontos - Está devendo
5 pontos - No próximo avião para fora da liga
Com base nesta lista, nesta temporada LeBron é o principal candidato a MVP, seguido de perto por Paul e Amaré. Kobe, favorito na maioria das listas, aparece só como fraco cadidato ao lado de Chris Bosh e Ginóbili. Será?
Como última curiosidade na coluna, uma lista com os melhores de todos os tempos segundo o PER. Claro que esses números incluem números arbitrários para compensar a falta de contagem de roubos, tocos e do número de posses de bola de cada time nos primeiros anos da NBA. Mas de qualquer forma, vale pela curiosidade e para o mais importante, como disse Hollinger, enriquecer uma discussão e agregar a ela, não para resolvê-la. E para mim, isso se estende para todos os números relacionados ao esporte.
A lista:
1 Michael Jordan 27.91
2 Shaquille O'Neal* 27.63
3 David Robinson 26.18
4 Wilt Chamberlain 26.16
5 Bob Pettit 25.41
6 Tim Duncan* 25.17
7 Neil Johnston 24.78
8 Charles Barkley 24.63
9 Kareem Abdul-Jabbar 24.58
10 LeBron James* 24.24
11 Magic Johnson 24.11
12 Karl Malone 23.89
13 Tracy McGrady* 23.88
14 Dirk Nowitzki* 23.84
15 Kevin Garnett* 23.84
16 Hakeem Olajuwon 23.59
17 Julius Erving 23.57
18 Larry Bird 23.50
19 Kobe Bryant* 23.49
20 Yao Ming* 23.22
21 Oscar Robertson 23.20
22 Jerry West 22.92
23 Elton Brand* 22.75
24 Elgin Baylor 22.72
25 Dolph Schayes 22.02
Fontes:

