Como eu já disse algumas vezes nas minhas colunas anteriores, os números mentem. Mas como provar que um número está mentindo pra você? Simples, use outros números. Melhore sua fórmula, refaça as contas, justifique direitinho e terá números novos, contando uma nova história.
Hoje falarei sobre um conceito que está sendo bastante usado nos últimos anos na NBA para se saber que times realmente são bons ofensivamente e defensivamente. É o conceito de posses de bola.
Temos na nossa cabeça o termo de "posse de bola" como tudo o que acontece desde que um time pega a bola, seja em uma cobrança de fundo de quadra ou em um rebote defensivo, até que esse time arremesse a bola na cesta. Quando esse time consegue um rebote ofensivo, dizemos que eles conseguiram outra posse de bola. Não está errado, claro, mas para os ranqueamentos dos times da NBA usamos uma conta diferente.
A conta é a seguinte: Posses de bola = Arremessos tentados + Turnovers - Rebotes Ofensivos + (Lances livres tentados x 0,44)
Parece meio absurdo alguém ter pensado nisso, né? Mas até que faz sentido. Essa fórmula transforma em posse de bola todo o momento que um time fica no ataque, então ele pode pegar vários rebotes ofensivos (vários tapinhas embaixo da cesta, por exemplo) e ainda será contada como uma única posse de bola. Assim, com essa fórmula em mãos, podemos analisar os números de um time de acordo com a sua eficiência e não com o seu ritmo de jogo.
Como exemplo, vou usar o mesmo de John Hollinger , especialista em estatísticas, atualmente trabalhando no site ESPN.com , que começou os trabalhos com essa fórmula de posse de bola. O Phoenix Suns, exemplo clássico de time reconhecido por seu ataque, é o segundo colocado em pontos na NBA nessa temporada com 109,2 pontos por jogo, e na defesa sofrem 104,2 pontos por jogo, o quinto pior time. Porém, o Suns faz tudo isso com a quarta maior média de posses de bola por partida. Seus jogos, com a velocidade por eles imposta, sempre têm mais arremessos tentados e posses de bola para os dois times envolvidos.
Então foram criados os rankings de eficiência ofensiva e eficiência defensiva, que medem quantos pontos um time faz e sofre a cada 100 posses de bola, para eliminar a questão do ritmo de jogo e apenas olhar para a eficiência em cada posse.
Considerando o ranking de eficiência ofensiva, o Suns deixa de ser o segundo melhor ataque para se tornar o melhor, com 110 pontos a cada 100 posses de bola. E ao invés de ser o 25o melhor time de defesa, no ranking de eficiência defensiva eles se tornam o 16o. Ou seja, eles tomam 104 pontos por jogo só porque seus jogos tem muitas posses de bola, não porque sua defesa é fraca. No meio da tabela, a sua defesa pode ser classificada como média, regular.
Procurando outros exemplos, ainda vemos coisas mais impressionantes e surpreendentes que os números defensivos do Suns. O Warriors, líder da NBA com 110,1 pontos por jogo, na eficiência ofensiva fica apenas em quinto lugar, atrás do próprio Suns, do Lakers, do Jazz e do Magic, time que raramente é reconhecido pelo talento ofensivo. Porém, a queda mais impressionante é a do Denver Nuggets. O time é o quarto em pontos por jogo com 107 por partida e na eficiência cai para o décimo terceiro lugar, com 104 pontos a cada 100 posses de bola. Como esse número mostra bem, o Denver é lider da liga em posses de bola por jogo, com 101,6 por jogo, seguido por Golden State, Indiana e só depois o Phoenix.
Nas últimas cinco posições, entre os times que jogam o basquete mais lento da NBA, estão Dallas, Toronto, San Antonio, Detroit e, por incrível que pareça, o time mais calmo da liga é o jovem time do Portland Trail Blazers.
Algumas coisas, porém, não mudam. Não é como se todas as estatísticas totais mentissem, os rankings de eficiência confirmam alguns números. É o caso do Detroit, lider da NBA com menos turnovers (bolas perdidas) por jogo. São 10,9 turnovers por jogo ou 11,3 turnovers a cada 100 posses de bola. Ainda falando sobre o Detroit, eles são o sétimo lugar em eficiência ofensiva. Nada mal para um time conhecido por ganhar jogos feios e com poucos pontos, não é? A explicação para o número baixo de 98,3 pontos por jogo (15o no geral) está na estatística que citei acima de posses de bola por jogo. Com apenas 90,4 por jogo, o time não tem posses o suficiente para marcar pontos como o Denver. Mas em aproveitamento, o time de Detroit é muito superior, com 108,3 pontos a cada 100 posses, contra apenas 104,8 do Nuggets.
Outra coisa interessante do conceito de posses de bola é usá-lo para analisar jogadores individualmente, não só os times. Uma das estatísticas mais interessantes é a de assistências a cada 100 posses de bola, ou seja, a porcentagem de posses de bola de um jogador que acaba em assistências. O líder dessa categoria é o cara que, segundo Gilbert Arenas, não deveria ser um All-Star (e, de fato, não foi ainda): José Calderón, armador do Toronto Raptors. São 42,7 assistências a cada 100 posses de bola dele. Atrás dele está o esquecido Brevin Knight, seguido de Jason Kidd, Jeff McInnis e, em quinto lugar, Steve Nash. Para deixar essa estatística um pouco mais justa, podemos usar uma outra, chamada "Usage Rate" (“Taxa de Utilização”), que conta o número de posses de bola que um jogador usa a cada 40 minutos. Nash tem 23,6 contra 11,8 de McInnis e 18,8 de Calderon. Ou seja, McInnis tem até um bom aproveitamento, mas ele é muito menos utilizado pelo seu time.
Os líderes nessa estatística de "Usage Rate" são LeBron James, Dwyane Wade e Kobe Bryant, provando em números o que todo mundo já sabia: nos seus times, todas as bolas têm de passar na mão deles. A conta para essa "Usage Rate" é, provavelmente, a mais confusa de todas, dêem uma olhada:
Usage Rate = {[arremessos tentados + (Lances livres tentados x 0,44) + (Assistências x 0,33) + Turnovers] x 40 x a média de posses de bola por jogo da liga inteira} dividido por (minutos x posses de bola por jogo do time do jogador)
E aí, você encara trabalhar fazendo uns números desses? Eu não, mas analisá-los é um trabalho legal.
Alguns dizem que essas estatísticas a cada 100 posses de bola foram uma das maiores revoluções nos números na NBA e acho que não há argumentos contra isso. Durante anos fomos induzidos a pensar que tal time era forte no ataque ou na defesa considerando apenas os seus números totais, mas algumas vezes era visível que os números não transmitiam a idéia certa. Citando o próprio Pistons de novo, eles foram campeões sobre o Lakers em 2004 com um ataque impecável que o time de Los Angeles foi simplesmente incapaz de parar em todos os cinco jogos. Eles podem até ter ganho fama pela defesa, mas sua execução ofensiva era sempre perfeita. A mesma coisa acontece com o San Antonio Spurs, é um time reconhecido por sua defesa mas que só tem o sucesso que tem porque, junto a essa defesa, tem um ataque que funciona o jogo todo, sempre com precisão. A justificativa que procurávamos está no ritmo de jogo, no estilo, na identidade de cada time, que sempre pareceu algo que não pudesse ser traduzido em números mas que, com a adição dos conceitos de posse de bola e dos números a cada 100 posses de bola, foi colocado no papel, na frieza dos números.
Fontes:
Hollinger Team Stats

