O grande assunto da última semana foi a troca de Shaquille O'Neal para o Suns em troca de Marcus Banks e Shawn Marion. Eu não poderia ficar de fora dessa discussão, então vou tentar fazer uma análise baseada em números. Que números se destacam ou precisam se destacar para Shaq dar certo no Phoenix Suns?
Sou da opinião de que o Heat não tinha nada a perder com essa troca; do jeito que estava, a coisa estava bem ruim e algo precisava ser feito. Para o Suns, a coisa não parecia ruim, o time tinha o melhor recorde do Oeste no momento da troca. Não digo que por isso a troca foi errada, mas foi um movimento arriscado, que só esperando podemos ver se foi acertado ou não. Mas podemos ver o que os números dizem que Shawn Marion fazia e não vai mais poder fazer e o que Shaq pode trazer para a equipe.
Começamos com a falta que Marion vai fazer no Suns. Alguns números são fáceis de se perceber. Desde a temporada 2000-01 ele perdeu apenas 12 jogos de temporada regular por contusão; Shaq, só nesta temporada, já ultrapassou isso de longe. Nessas temporadas todas, a pior média de rebotes de Marion foi 9,3 por jogo, e sempre variou entre isso e 11,8. Em todos os anos, ele foi o líder da equipe em rebotes, e mesmo com a chegada de Amaré Stoudemire à equipe ele não perdeu o posto de reboteiro. Nos pontos, desde sua segunda temporada fica entre os 16 e os 22, figurando em todos os anos entre os cestinhas do time. Sua pior média foi no ano passado, com 15,8, ano em que Leandrinho começou a se destacar como potência ofensiva. Nos roubos, sua média chegou a ser de exatos 2 por quatro anos seguidos, colocando-o facilmente entre os 10 melhores da liga em quase toda sua carreira.
Para completar, um número menos divulgado, o plus-minus. Para quem não sabe, o plus-minus é aquele número que aparece nas fichas dos jogos embaixo do sinal "+/-", e indica o saldo, negativo ou positivo, de pontos no momento em que aquele jogador estava em quadra. Individualmente, Marion é o segundo melhor da equipe, com +321 pontos, atrás apenas de Steve Nash. Nos números de dupla, aonde se vê o saldo de pontos quando cada dupla de jogadores estava em quadra, a dupla Nash-Marion é líder da equipe desde a chegada de Nash a Phoenix. Nessa temporada são +369 pontos, contra +311 da dupla Nash e Amaré e +307 de Nash e Raja Bell. A dupla aparece também como uma das líderes na temporada em dupla de assistências, ou seja, Marion é o que mais recebe passes decisivos de Nash, mais que Leandrinho, Amaré, Bell, Grant Hill ou qualquer outro, e na liga só recebe menos assistências que Carlos Boozer recebe de Deron Williams, no Utah Jazz. Somente quando é visto os melhores trios que Amaré aparece na lista, junto com Nash e Marion, claro. Aliás, esse é o terceiro melhor trio da NBA, com +282 pontos, atrás dos +325 de Ray Allen, Paul Pierce e Kevin Garnett e dos +287 de Rajon Rondo, Pierce e Garnett. A quarta posição também é do Suns com Nash, Marion e Raja Bell.
Acho que todos esses números deixam mais do que clara a importância que Marion tem, há anos, para a equipe do Phoenix Suns. Claro que é impossível esses números mostrarem que o Suns tem no seu forte elenco jogadores como Leandrinho, Diaw, Hill e Bell que, juntos, podem fazer o mesmo trabalho que Marion fazia, mas isso é uma incógnita que só será respondida com o passar dos jogos; o que sabemos agora é que não há mais no Suns o grande braço direito de Steve Nash.
Por outro lado, vamos ver as deficiências do Phoenix Suns. O time do Arizona tem campanhas parecidas em sua era Nash. Sempre é o líder da liga em pontos, bolas de três e todas as estatísticas ofensivas, mas tem dificuldades em enfrentar outros times fortes que tem jogadores grandes no garrafão, e assim acaba por perder sempre nos playoffs, morre na praia. Alguns números mostram isso, como os 46,6 rebotes que a equipe perde por jogo, é o segundo pior time em rebotes do adversário em toda a NBA. Mas talvez a marca mais preocupante seja o número de pontos que o Phoenix sofre dos pivôs titulares do adversário. São em média 15,5 pontos que eles sofrem por jogo. E estamos falando de uma liga que sofre, embora já tenha sofrido mais, com a falta de grandes pivôs. Muitos dos grandes jogadores altos da liga não jogam de pivô, mas sim de ala de força, como Tim Duncan, Dirk Nowitzki, Garnett e Boozer. E mesmo assim o Suns sofre contra os pivôs adversários. Os jogos contra o Los Angeles Lakers neste ano, por exemplo, foram facilmente vencidos pelo total domínio de Andrew Bynum, e a única vitória do Suns sobre o Lakers foi na ausência do jovem pivô. Nos últimos playoffs, também vimos como Duncan sempre tomava conta da partida quando necessário. Todas essas atuações marcantes agora tem esses 15,5 pontos por jogo por trás, um número que finalmente prova a deficiência do Suns em marcar os grandes caras, e que seria ainda mais assustador se calculasse o estrago que alas de força fazem também.
Como resposta para isso, parece ter sido inteligente trazer Shaquille O'Neal. Ele claramente não é o jogador dominante de antigamente mas, como muita gente já disse por aí, os seus 14 pontos por jogo, que no Miami não queriam dizer nada, já que o time sentia falta de muita coisa, serão muito valiosos em um time já cheio de talento como o Suns. Porém, esses pontos, sabemos, não vão vir em contra-ataques como os de Shawn Marion sempre vinham, e virão sempre no garrafão. Então vamos ver como o Suns se sai nesses dois quesitos.
Na temporada 2006-07, o Phoenix foi o terceiro melhor time em contra-ataques, com 17 pontos por jogo vindo dessa maneira, atrás dos 20,4 do Golden State Warriors e 18,6 do Denver Nuggets. Na mesma temporada, nos 64 jogos em que fez mais pontos de contra-ataque que o adversário, o Phoenix ganhou 51 jogos e perdeu 13. Nos 18 em que não teve vantagem nos contra-ataques, ganhou 10 e perdeu oito. Vemos aqui que o time não depende exclusivamente dos seus contra-ataques para vencer, mas que a vitória fica muito, muito mais fácil quando a equipe consegue colocar seu estilo de jogo veloz em ação. Já times como Dallas Mavericks, Detroit Pistons, San Antonio Spurs, Houston Rockets e Chicago Bulls apareceram com boas marcas mesmo quando perdem a batalha dos contra-ataques, mostrando o valor de seu jogo de meia-quadra, deficiência do Suns que tenta ser corrigida nesta temporada com a contratação de Grant Hill e agora de Shaq.
Pelo lado dos pontos no garrafão vemos o Phoenix no alto da tabela quando se diz respeito a marcar pontos no garrafão, sinal claro dos contra-ataques terminados em bandeja ou enterrada e também, claro, do poder ofensivo de Amaré Stoudemire. Porém, Amaré não tem esse forte na defesa. Isso é mostrado pela média de quase 4 faltas por jogo do pivô e pela posição ruim do Phoenix em pontos sofridos por jogo no garrafão. O time marcou na última temporada em média 43,8 pontos no garrafão, mas sofria 42,3. Nos 45 jogos em que Phoenix venceu a disputa por pontos no garrafão, foram 37 vitórias e apenas oito derrotas. Nos 37 jogos em que perdeu a disputa, foram 24 vitórias e 13 derrotas, o que é, na verdade, o terceiro melhor recorde da NBA em jogos em que se perde a batalha de pontos no garrafão. Somente Dallas e San Antonio foram melhores quando seus homens grandes perderam a luta. Isso mostra que o Suns até sabe lidar com o fato de não dominar o garrafão, não domina há anos e sempre tem um dos melhores retrospectos da liga. Por que então buscar um pivô e dar em troca um de seus mais talentosos jogadores?
A resposta não está nos números gerais da liga. Contra a maioria dos times, o Suns sabe se virar, aonde eles não conseguem é contra os times que eles enfrentam nos playoffs. Neste ano, contra os nove melhores times da Conferência Oeste, foram 14 jogos, com cinco vitórias e nove derrotas. Nos últimos anos de playoffs, foi só ver como eles sempre foram eliminados por grandes atuações de Duncan e Nowitzki, e como quase perderam para o Los Angeles Clippers dois anos atrás devido ao domínio de Elton Brand e Chris Kaman no garrafão.
Com esta troca, Steve Kerr, gerente geral do Suns, quis mostrar que não se engana com certos números. Essas estatísticas acima dão a entender que o Suns sofre quando seu contra-ataque não encaixa e não quando eles perdem a batalha de pontos no garrafão, e, logo, a solução para o título seria aprender a manter a correria contra Spurs, Dallas e o resto do Oeste. Mas já foi mais que provado, em quatro anos de playoffs, que eles não conseguem isso. E que a resposta é ser um time versátil, que consegue correr para continuar vencendo os times fracos e que pode segurar o garrafão adversário com um pivô forte como Shaquille O'Neal.
Mas se o Suns vai conseguir correr, rebotear e defender sem Shawn Marion e se Shaquille vai ser mesmo essa resposta no garrafão só o tempo irá dizer. Mas todos temos que concordar que é gostosa essa dúvida, que é legal ver um dirigente indo contra os números, contra o fato de que seu time está na liderança pra ver que a equipe tem problemas. Foi arriscado e espero que seja um risco recompensado, para vermos mais times correndo riscos na NBA.
Kerr não se enganou pelos números, e você, sabe entendê-los? Palpite e dê sugestões para a coluna.
Contato: pishenis@gmail.com ou bolapresa@gmail.com
Fontes:
NBA.com
Yahoo! Sports
82games.com

