Que ninguém reclame que os playoffs não estão sendo imprevisíveis, mas que estão aquém das expectativas que tínhamos, infladas por uma emocionante temporada regular, é inegável. Afinal, após quatro jogos em cada série, apenas duas estão empatadas, uma foi uma varrida e o resto estava 3 a 1, com uma já encerrada após o quinto jogo e a outra tendo começado em 3 a 0.
Há uma semana, eu disse que a série entre San Antonio Spurs e Phoenix Suns estava acima de todas as outras, mas foi uma análise baseada apenas na expectativa gerada por um histórico primeiro jogo de duas prorrogações. O jogo 2, porém, foi meio que uma reprise reduzida e sem tantas emoções, e o jogo 3 foi lamentável, uma atuação desconcentrada e desmotivada do Suns. Enquanto o Spurs entrou com tudo, disposto a matar a série, Phoenix jogou sem vontade, sem luta, e sua defesa esteve pior do que nunca. Um time que já é fraco na defesa tenta fazer ajustes durante uma série contra um time muito eficiente nos dois lados da quadra: não vai dar certo. Phoenix ainda reagiu e venceu o jogo 4, mas talvez seja tarde demais. Eles ainda podem compensar e nos dar uma série, vencendo hoje (terça-feira) em San Antonio, como fizeram no jogo 4 da série do ano passado, e na quinta para forçar um jogo 7, mas por enquanto, que decepção.
E a varrida do Los Angeles Lakers sobre o Denver Nuggets? Denver foi incapaz de jogar como equipe em ambos os lados da quadra até o segundo tempo do jogo de ontem (segunda-feira). No ataque, Allen Iverson, Carmelo Anthony e JR Smith tentavam resolver sozinhos; na defesa, poucas dobras, poucas ajudas, e muitas vezes Marcus Camby era "vendido" pelos companheiros, deixando Pau Gasol, Lamar Odom e, em uma ocasião, até DJ Mbenga sozinho no garrafão. O time se ajeitou um pouco e equilibrou a partida no segundo tempo, mas como dizem os americanos, foi "too little, too late" (muito pouco, muito tarde), principalmente porque Kobe Bryant estava do outro lado para dominar os minutos finais e garantir que o Lakers fechasse a série.
(Justiça seja feita, o Lakers foi e é muito melhor do que o Nuggets, mas Denver realmente não venceria esses dois jogos nem se tivesse Michael Jordan no time, da forma que os árbitros apitaram. Eu sempre condeno os jogadores por perderem a cabeça e arrumarem faltas técnicas, principalmente fora de casa onde você já sabe que as marcações raramente vão lhe favorecer, mas como culpá-los nestes dois jogos? Alguém sabe se o Tim Donaghy não estava apitando usando algum disfarce?? Qualquer arbitragem envolvendo Dick Bavetta e Joe Forte vai ser complicada. Muito respeito pela experiência da dupla, mas às vezes você se pergunta se não está na hora de pendurar o apito. Algumas faltas duvidosas a favor do Lakers e muitas faltas evidentes não-marcadas a favor do Nuggets.)
Esperava-se mais equilíbrio em outras séries, mas Orlando só teve um jogo ruim contra Toronto e já finalizou; Utah parece ter o comando contra Houston; Washington teve um jogo de muita motivação e vontade contra Cleveland e só; e Dallas parece ter visto o fantasma do Golden State encarnado no New Orleans Hornets e já se encolhe de medo. Para os quintos jogos, só apostaria em Houston vencendo porque joga em casa, e Phoenix talvez possa complicar e ganhar vida nova contra San Antonio, mas é isso. Uma decepção para quem esperava que nenhuma série no Oeste tivesse menos de seis jogos.
Os únicos focos de emoção dos playoffs estão vindo justamente nas séries envolvendo os dois times de melhor campanha da temporada, Boston Celtics e Detroit Pistons. Eu sinceramente já esperava que Philadelphia complicasse para Detroit e pudesse levar a série a sete jogos, pela forma como o Sixers terminou a temporada, pela forma que joga e pelo clássico desinteresse e falta de foco do Pistons. Minhas expectativas foram confirmadas logo no primeiro jogo e esta série não perdeu intensidade ainda em nenhum momento, nem mesmo na vitória do Detroit por dígitos duplos na segunda partida, porque já se sabia que o Sixers viria com tudo para os jogos em casa, e a emoção só aumentou quando Philadelphia tirou o Pistons de sua zona, venceu o jogo 3 e dominou o primeiro tempo do jogo 4.
Boston e Atlanta é que começou lentamente e cresceu nos dois jogos em Atlanta. Os jovens do Hawks se sentiram desrespeitados pelo mundo, que acreditava que o Celtics já havia liqüidado a fatura, e um fenômeno estranho aconteceu: a torcida da cidade compareceu ao ginásio e foi vibrante! Não sei se a má fase dos outros três times profissionais da cidade (Braves no beisebol, Falcons no futebol americano e Trashers no hóquei no gelo) fez os torcedores valorizarem mais o basquete, mas lá estavam eles, balançando toalhas e camisas e berrando. Os garotos notaram que a única maneira de enfrentar Boston é sendo agressivo e físico, e foi isso que fizeram, a ponto de tirar o rival do sério.
O quarto jogo foi ainda mais divertido porque estava equilibrado no final e os dois técnicos, Doc Rivers e Mike Woodson, são muito medianos. Boston já tinha gastado todos os seus tempos com mais de 1min30s por jogar, e a única jogada chamada por Woodson na segunda metade do último quarto foi "dêem a bola para o Joe Johnson e saiam do caminho". Ficou a cargo dos jogadores mais do que dos treinadores, e foi assim que Johnson, numa noite inspiradíssima em que fez sua melhor imitação de Kobe Bryant, venceu o jogo contra um Boston que, com a exceção de Garnett e Posey, parecia nervoso e desconcentrado, simbolizado pela bandeja perdida por Paul Pierce no último minuto, em que ele deixou a bola escapulir das mãos quando subia completamente só.
Os dois favoritos do Leste voltam para casa com algo a provar, e as duas zebras chegam com nada a perder. Mesmo que Boston e Detroit fechem suas séries em seis jogos, com certeza ambos os jogos serão cheios de intensidade. E se todas as outras séries derem guinadas e ganharem empolgação nos próximos dias, lembre-se: estes playoffs estão imprevisíveis, para o bem e para o mal.
TOP 14
14 - Dallas Mavericks: Sabe o que é mais curioso de o Avery Johnson estar com o emprego ameaçado? Que não foi ele que vendeu metade do time para arrumar um armador que não se encaixa com o técnico. É uma pena que ninguém possa ameaçar o cargo do Mark Cuban.
13 - Washington Wizards: Um time sem defesa não vai longe nos playoffs; podem perguntar para Denver. Não adianta compensar descendo a lenha no principal jogador do time adversário.
12 - Atlanta Hawks: Parabéns ao Atlanta por duas vitórias espetaculares em casa sobre o Celtics. A segunda exigiu muita maturidade, e o time vem tirando o adversário do sério. Em Boston, os garotos de Atlanta vão precisar dessa maturidade para agüentar a pressão da torcida rival.
11 - Philadelphia 76ers: O Sixers sentiu a virada do Pistons no quarto jogo, e é em momentos decisivos como este que o time precisa ser capaz de criar espaço para Andre Iguodala resolver. De qualquer forma, eles devem manter a mesma mentalidade e plano de jogo para a partida desta noite. As dobras de marcação em Rasheed Wallace deram certo no terceiro jogo e devem voltar.
10 - Orlando Magic: Dwight Howard está fazendo Orlando se esquecer de Shaq, mas o time ainda tem um problema: chuta muitas bolas de 3 mesmo quando não está em boas condições para isso. Parece até a seleção brasileira pré-Moncho (digo pré só porque ainda não vimos como será com Moncho). E este é o calcanhar de Aquiles da equipe.
9 - Cleveland Cavaliers: LeBron James disse que responder a DeShawn Stevenson seria como Jay-Z responder ao Soulja Boy. O próprio Jay, porém, pensa diferente, e fez um freestyle na sexta-feira para responder… DeShawn ! E agora, será que o Soulja vai fazer um rap para zoar LeBron? Francamente, o freestyle do Jay foi um dos piores de sua carreira, mas quando se tem bilhões de dólares na poupança e uma Beyoncé de aliança esperando na cama, você faz o que quiser, né. E LeBron realmente não precisava da ajuda; ele vem fazendo o suficiente para calar Stevenson por conta própria.
8 - Houston Rockets: Se Rafer Alston não estivesse lesionado nos dois primeiros jogos, esta série talvez estivesse mais equilibrada do que está. Com ele em quadra, os dois jogos em Utah foram resolvidos nos detalhes, e se o Rockets conseguir usar a vantagem do mando de quadra nesta terça, a série pode crescer. Só podemos torcer.
7 - Phoenix Suns: Boris Diaw acordou!!! Viva!!! Mas mais importante ainda para nós brasileiros é que Leandrinho também acordou e teve duas boas atuações seguidas. Ele precisa terminar a temporada bem para juntar confiança para o Pré-Olímpico Mundial.
6 - Detroit Pistons: A arrogância do Pistons cansa. A verdade escondida por trás das desculpas é que Chauncey Billups tem tido dificuldades contra armadores maiores há alguns anos e é o principal culpado pela falta de foco do time. Outra coisa que todos já sabíamos, mas que fica mais evidente a cada ano, é que Flip Saunders não sabe comandar um time de playoffs ainda. O Pistons chega longe por causa de sua experiência e talento, mas suas dificuldades em fechar jogos são gritantes, principalmente se comparadas à forma que o time fechava suas partidas com Larry Brown no comando.
5 - Utah Jazz: Fechar a série contra Houston parece questão de tempo.
4 - New Orleans Hornets: Este time não vai embora tão fácil. O prêmio de Técnico do Ano ao Byron Scott foi merecidíssimo, ele vem fazendo um excelente trabalho com este Hornets, que já é tão bom quanto o New Jersey Nets que Scott levou a duas Finais da NBA. Mesmo quando Chris Paul está bem marcado e sem a mesma efetividade de sempre, o resto da equipe sabe vencer jogos.
3 - Boston Celtics: Muitos criticam Kevin Garnett por não dominar jogos nos minutos finais, mas ele chamou a responsabilidade no último quarto do jogo 4 e acertou suas cestas. Ray Allen estava bem marcado e Pierce, bem, eu já disse o que ele fez, além de uma falta em cima de Johnson que deu ao ala lances livres decisivos no final. Rivers precisa de um plano de jogo melhor para partidas equilibradas como esta.
2 - San Antonio Spurs: A vitória no jogo 3 foi digna de um time tetracampeão da NBA. Tony Parker está voando novamente, e acho dificílimo que este time, mesmo que perca os dois próximos jogos para o Suns, perca um sétimo jogo em San Antonio.
1 - Los Angeles Lakers: Como negar o status de favorito? Não só eles movem bem a bola, tem boas peças ofensivas em todas as posições e defendem bem, ainda contam com a ajuda da arbitragem! Quem pode parar uma combinação dessas?

