Paraibano de nascimento, carioca por adoção, Togo Renan Soares, o Kanela, ganhou esse apelido de amigos que consideravam suas canelas bastante finas. O K no lugar do C foi idéia dele, inventivo até nisso. Togo e Renan aliás são nomes com bastante significado. Togo foi um almirante japonês que havia vencido os russos e Renan fora um filósofo francês que negava a presença de Deus. Kanela nasceu guerreiro, destemido e polêmico. Foi assim a vida toda.
Foi bom em quase tudo o que se dispôs a fazer. Se não tinha talento com a bola nos pés ou nas mãos, com a cabeça ele era um craque. Quando via que o placar não lhe favorecia, logo arrumava uma confusão para esfriar a partida e fazer com que seu time voltasse concentrado. Fazia, era expulso e punido, mas seu time vencia e ele ficava feliz da vida. E não foi só no basquete. Foi campeão de pólo aquático pelo Botafogo em 1944, de futebol pelo mesmo alvinegro do time de amadores que venceu três campeonatos seguidos na década de 40 e o responsável, já no Flamengo, pela revelação de Domingos da Guia, o maior zagueiro do Brasil.
Mas foi no basquete que Togo foi simplesmente o máximo. Apanhava seus jogadores em casa, dava-lhes alimento, procurava novos talentos em outros clubes e treinava suas equipes com muito talento e disciplina. Foi o precursor do contra-ataque em alta velocidade no Brasil. Vivia estudando o esporte e controlando seus atletas. Pergunte ao Wlamir Marques sobre um certo amistoso em Araçatuba e quanto suas orelhas não esquentaram. O Diabo Louro falhou, segundo relatos, e Kanela não o perdoou. Se era sargento em relação a disciplina, era um verdadeiro amigo dos jogadores. Emprestou carro para os basqueteiros saírem, saiu de casa para que as farras dos gigantes se consumasse, foi ao trabalho pedir para que os jogadores fossem liberados.
Quando treinava o Botafogo, time do coração de Kanela, chegou a molhar a quadra em que seu time entraria desfalcado de quatro jogadores e fez com que a partida fosse adiada, para vencê-la posteriormente. No Botafogo obteve uma série de títulos, no Flamengo um decacampeonato e até no Olímpico, clube carioca de menor expressão, Kanela brilhou. Só rumou do Alvinegro para a Gávea por entreveros com outra figura histórica do Glorioso: Carlito Rocha. Quem conhece um pouco de Carlito e alguma coisa de Kanela sabe que os dois nunca poderiam se dar bem.
Pela seleção, conquistou, comandando Wlamir e Amaury, dois títulos mundiais, sul-americanos e medalha na Olimpíada de 1960. Vencer foi o que mais fez Kanela nesta vida. Derrota não combinava com Kanela. Eternamente, o basquete será grato a Kanela.
O basquete brasileiro, campeão mundial em 1959 e 1963, agradece a ele. O povo brasileiro deveria conhecê-lo melhor. A maneira como se joga basquete hoje ainda tem muito molho de Kanela por aí.
Conquistas com a seleção brasileira:
Bicampeão mundial (1959 e 63); duas vezes medalha de prata mundial (1954 e 70); medalha de bronze mundial (1967); medalha de bronze os Jogos Olímpicos de Roma (1960); pentacampeão sul-americano (1958, 60, 61, 63 e 71); medalha de prata pan-americano (1963); duas vezes medalha de bronze pan-americano (1951 e 59)
Participação Especial de Fabio Balassiano
Colunista do site www.rebote.org
Emails para: fabiobalassiano@rebote.org

