Publicado por Adriano Albuquerque
Amigo leitor, marque esta coluna desta sexta-feira entre os seus links favoritos, busque as notícias desta semana e guarde os links, tire print screens e salve no computador, imprima os textos e guarde em uma gaveta para a posteridade. Esta semana pode ter marcado o início de uma mudança enorme no mundo do basquete, ao ponto que, em alguns anos, esta coluna pode mudar seu nome de “Esta semana na NBA” para “Esta semana na Euroleague“.
Estou exagerando? Estou sim. É que quando os efeitos das flutuações econômicas mundiais começam a ser sentidos nos esportes e até no basquete, você sabe que as coisas estão mudando, e rápido. O comissário da NBA, David Stern, deve estar rezando para que John McCain ou Barack Obama assumam logo o Oval Office e dêem um jeito na economia americana, antes que sua liga comece a sentir efeitos ainda mais drásticos da decadência aguda do dólar. Do jeito que vai, daqui a pouco até o Flamengo vai ter um jogador da NBA no elenco.
Tudo começou com nosso pivô brasileiro Tiago Splitter, que descartou se juntar ao San Antonio Spurs nesta temporada e resolveu ficar no Tau Cerámica da Espanha, onde receberá mais dinheiro do que receberia como calouro. Até aí, tudo bem, o euro está mais forte que o dólar, é um jogador que ainda nem jogou na liga, a NBA pode lidar em ter menos um craque estrangeiro; Dejan Bodiroga nunca foi para a liga, nem Oscar. Depois, o armador Brandon Jennings, maior prospecto da posição para o draft de 2009, decide não fazer faculdade e jogar profissionalmente na Itália. OK, é um golpe calculado no Acordo de Negociações Coletivas da NBA, mas afeta mais as universidades, que não terão nem mesmo um ano de Jennings, e no ano que vem o garoto provavelmente vai voltar e entrar no draft, sem crise. Depois, foi a vez de Juan Carlos Navarro voltar para a Espanha, aonde vai ganhar mais dinheiro, após um ano apenas no Memphis Grizzlies. Normal, não é o primeiro europeu a retornar ao Velho Continente depois de um único ano.
Mas aí Jorge Garbajosa foi junto. E Primoz Brezec. E Bostjan Nachbar. E Carlos Delfino. Todos para ganhar mais do que recebiam na NBA. Stern pode dizer o quanto quiser que perder estrangeiros para times europeus não o preocupa, mas pode apostar que o fato que ele está os perdendo para receber mais o incomoda sim. E não são estrangeiros inúteis, daqueles que simplesmente não se encaixaram na liga, como Arvydas Macijauskas e Sarunas Jasikevicius; Delfino e Nachbar tiveram boas temporadas por Toronto Raptors e New Jersey Nets, respectivamente, e estavam entre as primeiras opções de seus técnicos no banco.
O golpe que enfim chamou a atenção dos americanos foi desferido na quarta-feira, quando o ala Josh Childress anunciou que estava assinando com o Olympiacos da Grécia, onde receberá mais do que os US$ 5-6 milhões por ano que o Atlanta Hawks lhe ofereceu com sua mid-level exception. São US$ 21 milhões por três anos, com as taxas já descontadas, enquanto nos EUA ele ainda pagaria vários impostos em cima de seus US$ 5 milhões por ano. Seu contrato ainda tem a vantagem de permitir sua volta à NBA a cada ano se tiver proposta lucrativa, mas quem lhe oferecerá mais do que o Hawks ofereceu - uma boa oferta para sua função de sexto homem em Atlanta? Quem lhe dará a posição de titular e o prestígio que o Olympiacos lhe dará? Que time fará tudo isso e ainda lhe dará chance de ser campeão, como o Olympiacos faz ao colocar Theo Papaloukas, Sofoklis Schortsianitis e outros ao seu lado?
Os americanos abriram os olhos, mas em geral ainda não vêem como uma possível nova tendência. Ian Thomsen da Sports Illustrated diz que Kelenna Azubuike, do Golden State Warriors, descartou uma proposta que poderia ser de US$ 10 milhões anuais do mesmo Olympiacos, e que jogadores que lutaram a vida toda para chegar à NBA não serão conquistados pelo euro tão facilmente. Chris Sheridan da ESPN reconhece que o cenário está mudando, mas cita um empresário americano que diz que não há tantos clubes europeus com dinheiro para gastar. Henry Abbott, do blog TrueHoop, acha que apenas jogadores de salários medianos para baixo talvez considerem a mudança de ares e que os superastros ficarão nos Estados Unidos.
Mas quem garante que, daqui a alguns anos, a Euroleague, com mais jogadores de alto nível e com as mudanças de regra já aprovadas pela Fiba para aproximar o jogo internacional ao jogo americano, não vai ter o mesmo prestígio da NBA? Quem garante que o euro não vai continuar dando “olé” no dólar, facilitando que os clubes europeus gastem a mesma grana que os times da NBA? Quem garante que, com mais marketing e atenção do público internacional após a chegada de Childress e outros, bilhardários como Roman Abramovich não passarão a investir mais em clubes de basquete? É só ver como a Premier League cresceu nos últimos 20 anos em torno do poder da libra esterlina e dos gastos insanos de Abramovich para se notar que não é tão difícil de acontecer.
Stephon Marbury já dizia no ano passado que pensava em se aposentar na Itália (embora o que Marbury fala, não se escreve). Jason Kidd já está considerando a possibilidade de fazer o mesmo e disputar uma Euroleague. Entre os restricted free agents - jogadores na mesma situação que Childress - listados por Sheridan em sua coluna na ESPN, estão Ben Gordon e Luol Deng, ambos jogadores do Chicago Bulls que estão representando a seleção britânica na tentativa de qualificá-la a disputar os Jogos Olímpicos de Londres-2012; ambos já viveram na Inglaterra e provavelmente não teriam problema em morar na Europa, o que lhes deixaria mais próximos da seleção. O Bulls fez uma oferta de renovação a Deng menor do que a do ano passado, e como dificilmente algum outro clube vai fazer uma oferta maior com medo de Chicago igualar, eu diria que ele é o mais forte candidato a seguir Childress.
Abbott, do TrueHoop, comemorou o ocorrido como a chegada de um novo concorrente à NBA, algo que pode talvez diminuir a arrogância e prepotência que a liga americana carrega como principal campeonato de basquete no mundo. A NBA periga voltar a ser o que era nos anos 90, com poucos jogadores estrangeiros e muitos americanos com salários inflacionados, desta vez para mantê-los longe da Europa. Na minha opinião, é uma oportunidade de ouro para Stern observar a real viabilidade de sua sonhada expansão para o Velho Continente, e se confirmá-la, fazer esta expansão o quanto antes. O Acordo de Negociações Coletivas ainda tem três temporadas de validade, mas uma revisão imediata se faz necessária - não só por causa do êxodo europeu, mas por causa da questão do limite de idade e das universidades.
E mais uma coisa: Stern deve rezar para que a seleção americana consiga mesmo recuperar a medalha de ouro nos Jogos de Pequim. Também acho os EUA favoritos, é realmente um timaço, mas como de costume, os americanos já estão se considerando vencedores, acham que nenhum time vai conseguir batê-los, mas é melhor abrir o olho… Espanha, Grécia e Argentina estão jogando um basquete primoroso, e Rússia, Lituânia, Croácia, Alemanha e China não são flores que se cheire… Vencer os Jogos prova que, com jogadores debandando para a Europa ou não, o basquete americano ainda é o melhor do mundo. Perder o ouro novamente reforça a tese que a NBA está perdendo espaço para o basquete internacional.
NBA = WNBA
Eu não disse que o negócio na WNBA estava bom? Quem viu o jogo de terça-feira entre Detroit Shock e Los Angeles Sparks viu um jogão. Nos minutos finais, teve uma confusão estilo NBA, com Plenette Pierson, do Shock, e Candace Parker, do Sparks, trocando socos no chão antes de serem separadas pelas colegas. E assim como na NBA, a confusão foi no Palace of Auburn Hills, mesmo cenário da famosa invasão do Ron Artest às cadeiras para bater em torcedores que lhe tacaram um copo de bebida na cara, e envolveu Rick Mahorn, hoje auxiliar-técnico do Shock, que tentou tirar Artest das cadeiras na confusão de 2004 e sempre esteve no meio de várias brigas nos seus tempos de Detroit Pistons nos anos 80/90.
Só que mais uma coisa aproxima a WNBA da NBA: o tratamento privilegiado aos astros. Pierson, jogadora fundamental do Detroit, mas nem um pouco conhecida, recebeu quatro jogos de suspensão por “iniciar e escalar o confronto”. Parker, primeira selecionada do draft deste ano, sensação da liga por ser a segunda jogadora a enterrar uma bola na história da WNBA e sua maior esperança de conquistar um público maior nos Estados Unidos, recebeu apenas um jogo por “dar um soco”, quando claramente foi tão culpada quanto Pierson por iniciar e escalar o confronto. O certo era que tivesse a mesma punição que a rival. Sabe por que ela recebeu só um jogo? Porque hoje, sexta-feira 25 de julho, no que seria seu segundo jogo de suspensão, o Sparks visita o New York Liberty no Madison Square Garden. Você acha que a WNBA perderia a chance de exibir sua grande estrela no maior palco midiático do basquete americano?
Alguns talvez lembrem que a NBA já teve a coragem de suspender Kobe Bryant justamente de um jogo contra o New York Knicks no Madison Square Garden, se não me engano em 2006-07. Porém, a NBA ainda pode se dar ao luxo de fazer um jogo entre Lakers e Knicks sem sua maior estrela sabendo que o Garden vai lotar mesmo assim e que a audiência da liga não vai cair. A WNBA, infelizmente, não pode.
Adriano Albuquerque
Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
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