Esta semana na NBA: Josh Howard põe fogo nas eleições americanas (vídeo)

Publicado em: CAPA, Colunas, Esta semana na NBA
Tags: , , , ,

19/09/2008 | 18:43

Publicado por Adriano Albuquerque

Na coluna Esta semana na NBA desta sexta-feira, Adriano Albuquerque fala das polêmicas declarações do ala Josh Howard, do Dallas Mavericks, sobre o hino nacional americano, contextualiza a rivalidade racial americana e analisa como isto pode afetar a disputa presidencial dos EUA entre o republicano John McCain e o democrata Barack Obama.

Dêem uma olhada nos comentários recolhidos por Mark Cuban em seu blog após a controvérsia de Josh Howard em torno do hino nacional americano. Deu para entender por que esta eleição de John McCain contra Barack Obama é tão importante e decisiva na história dos Estados Unidos?

Caso você estivesse em coma e só tenha acordado agora, ou caso você seja uma pessoa comum que não acompanha a NBA e não faz idéia do que eu estou falando, deixe-me resumir. Josh Howard é um ala do Dallas Mavericks, jogador titular e um dos favoritos da torcida. Entretanto, 2008 não vem sendo o melhor ano da vida dele. Desde que o time obteve Jason Kidd como armador, seu rendimento caiu. Aí, quando começaram os playoffs, ele não só admitiu publicamente em uma entrevista no rádio que fuma maconha nas férias, como foi visto na noite repetidas vezes durante a curta passagem do Mavs pela pós-temporada. Pouco depois, ele foi preso por exceder o limite de velocidade com seu carro em uma rodovia de Winston-Salem, sua cidade natal, na Carolina do Norte.

E nesta semana, surgiu na internet uma gravação, feita com um telefone celular, de Howard xingando o hino nacional americano durante um evento beneficente do armador Allen Iverson. “O ‘Star-Spangled Banner’ está tocando. Eu não celebro essa (palavrão), eu sou negro. Obama ‘08, toda essa (palavrão)”, diz o ala, enquanto seus colegas (verdadeiros amigos da onça por publicarem o vídeo na internet) riem. Veja o vídeo nesta matéria do canal de TV americano ESPN:

Desde então, Mark Cuban, proprietário do Dallas Mavericks, disse que havia conversado com o jogador e que qualquer ato disciplinar da franquia seria executado internamente. Ele disse que Howard se desculpou, mas o jogador não deu nenhuma desculpa em público - a pré-temporada do Mavs começa com um Dia da Mídia em 29 de setembro, certamente Howard vai ser mais procurado do que os astros Dirk Nowitzki, Jason Kidd e o novo técnico Rick Carlisle. Na quinta-feira, Cuban resolveu reunir comentários e e-mails recebidos por ele concernendo as declarações do lateral. São mensagens repletas de termos racistas, chamando os negros de “escravos”, “criolos”, “macacos”, “anti-americanos”, e condenando qualquer um que, como Cuban, defenda seus direitos.

Os comentários são inacreditáveis. Confirmam aquilo que se diz sobre o povo americano: grande parte dele é ignorante ao resto do mundo e à evolução dentro do próprio país. Colocam no mesmo saco árabes, africanos, asiáticos, europeus, sul-americanos. Acham que na Rússia, Cuba e China, o socialismo ainda impera na mesma medida que há 20 anos atrás. Além disso, dá a dimensão de como o problema racial lá é muito pior do que aqui.

Eu falei disso um pouco quando mencionei a contratação de Larry Brown como técnico do Charlotte Bobcats alguns meses atrás. Aqui, quando reportamos alguma polêmica americana envolvendo raça - como por exemplo a polêmica capa da Vogue com LeBron James e Gisele Bündchen que supostamente lembrava o pôster da versão original de King Kong, ou a controvérsia em cima do código de vestuário da NBA de três anos atrás - nossa imprensa mostra espanto com a sensibilidade americana e muitas vezes tratam essas notícias com desprezo e desleixo, mas são coisas sérias. Isso não se entende por aqui porque a nossa discussão racial é muito diferente por uma infinidade de motivos que não cabe a mim discutir aqui - seja atraso, maquiagem, a “mestiçagem como grande símbolo da brasilidade”, menor proporção de negros em nosso país em relação a outros países, etc.

Nos EUA, a proporção, pelo menos no Sul e nas megalópoles, é aparentemente maior. De acordo com o censo de 2000, 12,4% dos americanos se consideram negras ou afro-americanas. Quando visitei Nova York uma vez, uma amiga me disse, “você vai ver mais negros em um dia na rua do que em toda sua vida”. Nem tanto, até porque conheço muita gente que se considera negra aqui no Rio, mas realmente, a proporção de negros circulando por Manhattan é bem maior do que na Zona Sul da minha cidade, que é o meu habitat. A tensão entre raças é muito maior; quando fui, havia ocorrido o assassinato de um indivíduo negro inocente e desarmado por policiais - e a força policial também tem maioria branca. Agora não lembro direito, mas foram entre 40 e 50 tiros, e a revolta da população negra com o ocorrido estava em todo lugar. Uma situação muito mais delicada.

Uma coisa que nós sabemos aqui no Brasil e não precisa de nenhuma explicação é o orgulho patriótico americano - às vezes transbordando ao ufanismo irracional, mas na maior parte admirável e invejável. Diferente do nosso patriotismo, que parece que só aparece quando alguém recebe uma medalha de ouro ou a Seleção Brasileira conquista uma Copa do Mundo, ou ainda como no comercial das sandálias Havaianas com o Lázaro Ramos, aquele em que ele e um amigo no quiosque discutem os problemas do Brasil, mas ficam defensivos quando um estrangeiro, aparentemente um argentino, concorda com eles. Não quero dizer que, se alguém desrespeitasse nosso hino como Howard fez, não haveria revolta, mas ao mesmo tempo, o hino é mutilado em eventos esportivos há anos - hoje em dia, a melodia é cortada entre “Se o penhor…” até “…a imagem do Cruzeiro resplandesce” - e ninguém dá um pio sobre isso.

Muitos negros não se sentem representados pelo hino americano, revoltados com a escravidão de seus ancestrais que ajudou a construir o país - assim como descendentes de índios não cantam do hino por causa de tantos ancestrais mortos na expansão do país à Costa Oeste do continente. Existe uma versão negra do hino nacional americano, o poema “Lift Every Voice and Sing” (”Erguei todas as vozes e cantais”), de James Weldon Johnson, criado em 1900 para demonstrar o patriotismo negro ao mesmo tempo que denunciava o racismo e escravidão da época. Em 1996, Mahmoud Abdul-Raouf se negou a ficar de pé pelo hino por causa de suas crenças religiosas - Abdul-Raouf havia se convertido ao islamismo. Em 2003, a jogadora de basquete Toni Smith, da universidade Manhattanville College de Nova York, se recusou a pagar tributo à bandeira, e a garota explicou, com muita eloqüência, que a bandeira representa para ela a morte de milhões de indígenas massacrados, a escravidão de milhões de negro, e a opressão de muitos até hoje. Ela ainda acrescentou que reconhecia o valor das pessoas que morreram lutando pelo país, mas que é preciso reconhecer também os males associados à bandeira. Recentemente, a cantora de jazz Rene Marie cantou o hino negro sobre a melodia do hino nacional em uma solenidade em Denver, gerando polêmica nos EUA, e alegou que não se sente querida no próprio país.

Quando um cara como Howard, porém, dá uma declaração destas, o impacto é muito maior e diferente. A sua explicação de não respeitar o hino por ser negro é muito simplista, não significa nada. Seus detratores têm razão em apontar que, não fosse o sistema colocado pelo país, Howard não teria tido oportunidade de cursar uma universidade e não estaria recebendo milhões de dólares do Mavericks. A declaração fica ainda mais estapafúrdia quando lembramos que, antes de todos os jogos da carreira profissional de Josh Howard, ele respeitou o hino nacional americano, e o site da ESPN hoje publica inclusive uma foto dele com a mão sobre o coração durante a execução do hino, antes de uma partida!

Olha a prova do “crime” aí (Tim Heitman/Getty Images)

E isso tudo vem em meio a uma eleição em que há um conflito entre o patriotismo conservador da ultra-direita, que defende a manutenção da posição dos Estados Unidos como “patrulheiro-vigilante do mundo”, liderado por John McCain, e a esquerda-pero-no-mucho, conciliatória de Barack Obama, que apesar de ter uma mensagem correta, está sendo apoiada em grande parte apenas porque o candidato é negro. O vídeo de Howard, incluindo a citação quase ininteligível a Obama, só põe mais lenha na fogueira entre as duas partes. Os seguidores de McCain certamente acusarão os eleitores de Obama de serem ignorantes, odiadores da América, comunistas, que só querem assumir o poder para executar um plano de vingança aos brancos - é praticamente isso que dizem os revoltados que mandaram mensagens a Cuban. Em um momento de evolução da discussão, os americanos estão dando dois passos para trás.

***

Por enquanto, não tenho nada a mais para falar nesse assunto. Estou ansioso para ler suas opiniões quanto a isto; eu os convidaria para comentar na coluna, mas algum problema nos aflige há algum tempo e acho que seria mais seguro se me mandassem e-mails para albuquerque.adriano@globo.com.

Vamos deixar as coisas um pouco mais agradáveis neste espaço? Chega de falar de conflito racial. Vejam esse vídeo sensacional que o Rubens me passou, do Shaquille O’Neal dançando com seus filhos. O cara sabe dançar; se desistir de ser policial, poderia facilmente passar o resto da vida dançando em clipes do Justin Timberlake, Madonna, Michael Jackson e Britney Spears…

Adriano Albuquerque Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
Outros artigos publicados por Adriano Albuquerque

Comentários

Sem comentários »

Sem Comentários ainda.

RSS feed para comentários neste post. TrackBack URL

Deixe um comentário

Você precisa estar logado para postar um comentário.

Notícias relacionadas

Newsletter

Digite seu email

Publicidade

Anuncie no BasketBrasil

© 2008 BasketBrasil. Todos os direitos reservados.

Sobre o BasketBrasil | Aviso legal | Contato

BasketBrasil pela rede: Youtube | Orkut | Facebook | Twitter

Anuncie no BasketBrasil | Ajuda | Faça parte da equipe