Publicado por Adriano Albuquerque
É só o começo da temporada e os números costumam cair com o tempo, se ajustar conforme os jogos se acumulam; uma melhor amostragem das estatísticas de cada jogador costuma sair no segundo mês, quando o corpo de jogos disputados é maior e você sabe quem veio pra ficar e quem estava apenas empolgado pelas primeiras semanas de campeonato. Mesmo assim, há motivos legítimos para se crer na evolução dos dois pivôs brasileiros da NBA, Nenê e Anderson Varejão.
Após oito jogos, Nenê tem médias de 15,1 pontos, 8,1 rebotes, 2 tocos, 64,8% de aproveitamento nos arremessos e 78,4% nos lances livres - todos recordes pessoais. Anderson, como reserva em nove partidas, vem produzindo 8,4 pontos, 0,8 toco, 1,2 roubo e 66,7% nos arremessos, recordes pessoais apesar de estar jogando menos tempo do que no ano passado - 25,7 minutos por jogo contra 27,5 em 2007-08. Mas qual é o segredo das boas produções da dupla brazuca? A partida entre suas equipes, Denver Nuggets (Nenê) e Cleveland Cavaliers (Anderson), na última quinta-feira, deu boas pistas.
Apesar de minha conexão cair bem no meio do último quarto, em um dos poucos momentos em que os dois dividiam a quadra (valeu Vírtua! “O mundo é dos NETs”, uma ova!!), deu para ver que a forma como os dois são utilizados mudou em relação a temporadas passadas. No Nuggets, a mudança foi mais acentuada; afinal, Nenê passou de um reserva com minutos reduzidos por causa de suas constantes lesões a titular absoluto após a troca de Marcus Camby por dois pastéis de vento. Mas não é só isso: como eu disse na semana passada, a chegada de Chauncey Billups abriu ainda mais jogadas para o pivô paulista, que é bastante ativado no poste baixo em jogadas de isolamento e em pick-and-rolls com o armador.
Defensivamente, o fato de Nenê estar mais vezes no centro como pivô, em vez de na posição 4 com Marcus Camby encarregado da proteção à cesta, o ajuda a obter mais rebotes e dar tocos, mesmo que continue sem usar seu porte físico avantajado para proteger a área do rebote, o famoso box-out. Nenê novamente está próximo dos seus números de roubo de bola do início da carreira - em suas duas primeiras temporadas, teve 1,6 e 1,5 por jogo, agora tem 1,4 - mas a melhora nos tocos comprova que ele está mais responsável debaixo do aro. Além disso, por causa da escassez de pivôs no elenco, o técnico George Karl tem usado formações mais baixas - em uma parte do jogo de quinta, lançou Renaldo Balkman e Linas Kleiza como dupla de garrafão - o que deixa Nenê ainda mais preso ao garrafão.
Contra o Cavs, porém, Nenê acertou apenas três de sete arremessos, saiu com 12 pontos e 3 rebotes. A leitura que Camby fez sobre o ex-companheiros a algumas semanas é perfeita: se ele não é envolvido desde cedo no jogo, frustra-se e se distrai, não se destaca. Na quinta, em vez de distribuir a bola, Billups atacou mais no início, aproveitando que Mo Williams estava dormindo em sua marcação, e já tinha dígitos duplos em pontos no primeiro quarto. Sem receber toques no garrafão, Nenê logo cometeu duas faltas, ficou pendurado e foi para o banco. A boa defesa do Cavs, com dois pivôs mais altos, também afastou o paulista de sua posição favorita em quadra e ele tentou alguns arremessos de média distância além de seu alcance ideal. Mérito para a defesa do Cavs.
E quando se fala em defesa do Cavs, se fala de Anderson Varejão. Ele foi chave na reação do Cavaliers no final do primeiro tempo, quando o Nuggets ameaçava abrir grande vantagem. Seu jogo permanece basicamente o mesmo: aproveitar sobras e espaços dos outros, tomar a frente dos adversários na defesa, buscar rebotes para manter posses vivas, cavar faltas. Ele parece genuinamente melhor preparado para esta temporada, em melhor forma física e com melhor domínio dos fundamentos do jogo.
A principal diferença, no entanto, é o time ao redor dele. Sinceramente, nos últimos anos, mesmo quando o Cavs disparou rumo às Finais da NBA em 2007, achava o time deles medíocre, um time dependente demais de LeBron James e que contava com um ou outro que subia de produção a cada jogo para ajudar a segurar a barra. Este ano, não: o Cavs tem cara de um time de elite. LeBron ainda é 50% do time, mas 50% é bem melhor do que ser 80%, ou 90%. Mo Williams não é um armador principal nem em Cleveland, nem na China, nem no Brasil, nem no Butão, mas o Cavs talvez esteja provando que ter um armador “puro” é superestimado. Cleveland tem três jogadores capazes de carregar a bola, criar seu próprio chute e jogar sem a bola: James, Williams e Delonte West - sem contar com Daniel Gibson, que também deu um salto de qualidade neste início de temporada. Talvez não tenham um distribuidor, mas se o time se movimenta bem sem a bola, o armador só precisa passar para quem ficar sozinho na jogada.
Com mais opções ofensivas para explorar, Mike Brown, tão criticado por todos nós por anos, está mais criativo no ataque. Após ver LeBron atuar bem como ala-pivô nos Jogos Olímpicos de Pequim - e também pelo mesmo problema de escassez de pivôs do Denver -, ele tem explorado mais a formação mais baixa e os ataques em velocidade, e é aí que Varejão entra. No início do último quarto contra o Nuggets, ele jogou como pivô, mais próximo da cesta. Ele é ideal para este tipo de esquema: tem a altura, os braços longos e a energia para buscar os rebotes e puxar os contra-ataques, além de comandar bem a defesa e se postar direito no meio do garrafão. Com Williams, Gibson, James e Szczerbiak abrindo a quadra, uma ou outra bola sempre sobra para ele definir embaixo do aro.
Analisando essas circunstâncias que ajudaram a dupla a ter sucesso neste início de temporada, fico na dúvida: será que funcionariam juntos na Seleção Brasileira? Há uma questão maior ainda, que é quem iria para o banco entre Tiago Splitter, Nenê e Varejão. O capixaba é certamente o mais adaptado à função de “sexto homem” e poderia mudar o estilo de jogo do Brasil quando entrasse, mas ao mesmo tempo, Splitter e Nenê são pivôs que exigem participação constante e, apesar de um ter mais “finesse” e o outro ser mais de força, fazem o mesmo tipo de jogo. Imaginem se o Brasil pegasse aquela Alemanha indigesta de novo; qual deles marcaria Dirk Nowitzki? Preferencialmente, nenhum dos dois, certo?
É uma dúvida gostosa - se, claro, os três se apresentarem à Seleção na próxima convocação, algo que, nos últimos anos, aprendemos que não é uma garantia. Torçamos para que, na Copa América, Moncho Monsalve - ou quem quer que seja o técnico da Seleção no torneio - tenha o gostinho de resolver essa interrogação.
Enquanto isso…
Deixo minhas condolências a Leandrinho, Arthur e à família Barbosa pela morte de dona Ivete. Jamais conheci a matriarca do clã Barbosa, mas agradeço, onde quer que ela esteja, por ter criado essa dupla - um, nosso ídolo nas quadras do mundo, o outro, parceiro que nos deu uma força nos últimos meses, quando era seu irmão quem enfrentava uma barra pesada com a imprensa brasileira. Que Deus a tenha, dona Ivete.
Agora, boas notícias:
Nossa área de comentários está funcionando a todo vapor novamente! Ou seja, quem quiser elogiar, criticar, esculhambar, etc, sinta-se livre e à vontade para deixar sua opinião! Como já disse, este ano, nosso Ranking de Forças da NBA é interativo, e se você quiser deixar seu próprio ranking aí nos comentários, ele será levado em consideração na nossa matemática para a próxima semana. Mandem bala! E embaixo segue o ranking semanal - na primeira coluna de dezembro, entra o ranking mensal com comentários detalhados sobre cada equipe.
RANKING DE FORÇAS BASKETBRASIL
posição - time - (posição anterior) - campanha
1. Los Angeles Lakers (2) 7v-0d
2. Boston Celtics (1) 8v-1d
3. Atlanta Hawks (8) 6v-1d
4. Houston Rockets (5) 5v-3d
5. Cleveland Cavaliers (10) 7v-2d
6. Utah Jazz (4) 6v-2d
7. New Orleans Hornets (3) 4v-3d
8. Phoenix Suns (6) 6v-3d
9. Detroit Pistons (7) 6v-2d
10. Portland Trail Blazers (14) 5v-3d
11. Denver Nuggets (16) 4v-4d
12. Toronto Raptors (9) 4v-4d
13. Orlando Magic (11) 5v-3d
14. Indiana Pacers (18) 4v-3d
15. Philadelphia 76ers (15) 3v-5d
16. New York Knicks (24) 5v-3d
17. Dallas Mavericks (12) 2v-6d
18. Miami Heat (19) 4v-4d
19. Milwaukee Bucks (17) 4v-5d
20. San Antonio Spurs (13) 2v-5d
21. Chicago Bulls (21) 4v-5d
22. Golden State Warriors (22) 3v-6d
23. Memphis Grizzlies (20) 3v-6d
24. New Jersey Nets (26) 2v-5d
25. Sacramento Kings (27) 4v-5d
26. Washington Wizards (23) 1v-5d
27. Charlotte Bobcats (28) 2v-5d
28. Minnesota Timberwolves (25) 1v-6d
29. Los Angeles Clippers (29) 1v-7d
30. Oklahoma City Thunder (30) 1v-7d
Adriano Albuquerque
Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
Outros artigos publicados por Adriano Albuquerque

