Esta semana na NBA: Por que a caça às bruxas contra Leandrinho e Iziane?

Publicado em: DESTAQUES, Esta semana na NBA
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27/06/2008 | 17:00

Publicado por Adriano Albuquerque

Infelizmente, o draft da NBA desta quinta-feira fica em segundo plano na coluna de hoje (sexta, 27 de junho), graças à “caça às bruxas” que a grande imprensa brasileira vem fazendo em cima de Leandrinho e Iziane, o primeiro por pedir dispensa da seleção brasileira e a última por conta do escândalo de seu corte durante o Pré-Olímpico Mundial de Madri.

O caso de Iziane é mais compreensível, porque sua atitude realmente pareceu egoísta, temperamental e imatura. Suas declarações teimosas nos dias seguintes, dizendo que estava arrependida, mas repetiria sua atitude, só pioraram a situação. O que não ajuda é todo mundo cair em cima e criticar, criticar, criticar. Gente que nunca sequer viu Izzy jogar apareceu de todos os lados para esculhambar, ironizar sua posição de “estrela” e dizer como ela deveria ser patriota, ter orgulho de representar o país, etc.

Aí aparece o Leandro pedindo dispensa por lesão no joelho e a imprensa cai em cima, o novo técnico Moncho Monsalve faz um bafafá dizendo que nunca mais o convocará (o que não significa bulhufas, já que o espanhol mesmo disse que está aqui para o Pré-Olímpico e talvez nem sequer treine a seleção na Olímpiada, caso se classifique). Vem o atestado médico do Phoenix Suns, publicado aqui no BasketBrasil, e todo mundo pede desculpas, retrai as garras. Aí, Leandrinho joga cinco minutos de uma peladinha beneficente nos EUA e todo mundo cai em cima de novo. A manchete do jornal O Globo, baseada em uma foto que mostra o armador disputando uma bola com Baron Davis, pergunta “Isso não é esforço?” Vejam a imagem logo abaixo:

É o tipo de manchete tendenciosa que induz o leitor a uma conclusão. O papel do jornalista e do jornal é informar e usar o máximo de informações para conduzir o leitor a uma reflexão, não induzí-lo a uma conclusão. Sim, é uma pergunta, mas todo mundo sabe o tom da pergunta - irônico, desafiador, contundente. O título é baseado em uma foto da Wire Image, um momento congelado no tempo. Quem sabe o que de fato ocorreu no lance? Davis se chocou com Leandro? Seus pés se tocaram? Será que eles realmente estavam a esta distância um do outro - lembrem-se, dependendo da lente usada pelo fotógrafo, as coisas podem parecer maiores, menores, mais próximas, mais separadas, do que realmente são. E é um lance só, em cinco minutos. Quantas dessas “divididas” sabemos que Leandro fez ou não fez?

É ridículo achar que uma participação de cinco minutos em uma peladinha sem contato, com colegas de trabalho, significa que Leandrinho tinha condições de estar treinando em tempo integral por um mês com a Seleção Brasileira e de disputar um torneio de tanta importância quanto o Pré-Olímpico Mundial de Atenas. Nós consultamos um médico ortopedista, que assistindo às imagens do jogo disponíveis no Youtube disse que o risco de piorar a lesão era pequeno e que uma pelada leve como a disputada pelo paulista não seria algo proibido. E Leandro disse que os médicos do Suns estavam presentes ao evento, monitorando cada um de seus passos. Será que os patrões de Leandro permitiriam que ele entrasse em campo se achassem que ele iria piorar a condição do joelho? É tudo uma grande conspiração contra o basquete brasileiro?

Outro erro é dizer que o Leandrinho pediu dispensa da seleção - não, não foi ele quem pediu a dispensa, foram os patrões dele, o Phoenix Suns. As pessoas esquecem que o Leandro disputou o último Pré-Olímpico, em Las Vegas, recém-saído de uma cirurgia no cotovelo, no sacrifício. Aceitou todas as críticas e esculachos pós-eliminação no Mundial de 2006 e pós-Pré-Olímpico. E agora, é taxado de anti-patriota? Façam-me o favor.

Infelizmente, com a imprensa esportiva brasileira, não há nunca como vencer. Eles sempre vão achar um motivo para reclamar. É uma hipocrisia sem tamanho. E não é só com o basquete não, é qualquer esporte. Lembram-se da final da Copa do Mundo de 1998, quando a escalação da seleção chegou às mãos dos narradores e comentaristas com Edmundo no time titular? Todos bradaram que era um absurdo, “como Ronaldinho, o melhor jogador do mundo, vai ficar fora de uma final de Copa?” Aí, depois do jogo, ao ver que Ronaldinho não tinha nenhuma condição de jogo, veio a contra-argumentação: “Ronaldinho não podia jogar naquele estado”; “por que Zagallo não colocou o Edmundo no lugar do Ronaldo?”

Outro dia, eu assistia a um programa de TV por assinatura e os comentaristas reclamavam que a seleção estava muito isolada dos torcedores, evitava seus fãs, tinha uma atmosfera “inalcançável” e precisava daquele contato com a torcida brasileira. Aí, passam-se duas semanas e, no mesmo canal, os comentaristas de outro programa argumentavam, após a derrota do Fluminense para a LDU no primeiro jogo da final da Copa Libertadores, que o time carioca deveria ter ficado num hotel mais isolado e reservado, longe de sua torcida! Ah, então a seleção precisa ter contato com os torcedores, mas o Flu tem que ficar isolado? Isso faz sentido??

Vendo os documentários sobre os 50 anos do primeiro título mundial de futebol do Brasil, na Copa de 58, podemos ver que esta hipocrisia e falta de visão da imprensa esportiva nacional não é de hoje. Naquela época, os jornalistas já reclamavam do zelo da CBD de isolar a delegação brasileira, ter medidas rígidas, e a imprensa carioca principalmente reclamava o quanto podia porque o técnico era paulista. Depois da Copa, porém, o zelo e preocupação foram louvados como as principais razões de o Brasil enfim superar a “síndrome de vira-lata”, como Nelson Rodrigues descrevia.

Olha, eu detesto criticar outros jornalistas, pois acho isso golpe baixo, contraproducente; cada veículo de comunicação deveria ter seu próprio ombudsman para analisá-lo e criticá-lo. Tentei não mencionar nomes neste texto porque meu problema não é com nenhum indivíduo, é com a cultura geral do jornalismo esportivo brasileiro. Sei que muitos - jornalistas e leitores comuns - vão discordar da minha opinião e os convido a deixar suas opiniões nos comentários da coluna. Mas preciso voltar a perguntar: que direito tem a grande imprensa de questionar e atacar o basquete brasileiro, quando esta o ignora quase que completamente por todo o ano? Não quero nem defender a Iziane ou o Leandrinho; eles são bem grandinhos, sabem o que fazem e as conseqüências de seus atos. Não defendo nem mesmo a CBB. Mas acho que a pergunta é pertinente.

Aliás, talvez este texto devesse estar no blog da redação em vez da coluna. Coloquei aqui porque tem a ver com NBA, visto que Leandrinho joga na liga e Iziane joga na versão feminina. Enfim.

Outra coisa: essas polêmicas sempre surgem no meio do Pré-Olímpico, no meio do processo todo. Ano passado, a imprensa caiu em cima da história do Marquinhos falando da desunião no grupo. Isso tudo só atrapalha e desvirtua a seleção. Talvez, em vez de só criticar a CBB e a desorganização do basquete nacional - que, sem dúvida, existe e deve ser apontado - a imprensa devesse olhar para si própria também. Por que essas críticas e problemas só surgem na hora da competição? Cadê essa cobrança por todo o ano?

Adriano Albuquerque Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
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Comentários

5 Comentários »

  1. Comentário por Paulo Roberto — June 27, 2008 @ 6:55 pm

    É isso aí, Adriano, bom desabafo contra os corvos de plantão. Se bem que o site do Globo.Com tem se comportado bem no caso, hoje ouviram o médico Dr. Moisés Cohen dando uma opinião diferente, mas é normal haver isso, um debate mais técnico aberto entre pessoas com conhecimento médico, embora nenhum dos dois tenha de fato examinado o caso de perto, a bola está com o Leandro e o staff do Suns. Agora também estou cansado dessa cruzada dos “corneteiros patriotas”.

  2. Comentário por Rubens Borges — June 27, 2008 @ 8:39 pm

    Gurizxada, vou dar minha opinião iá que operei o joelho uma vez. Mesmo antes de operar joguei uma “peladas” sem o ligamento cruzado anterior no meu joelho esquerdo. Não conseguia jogar basquete, mas uma peladinha, sem me esforçar muito, sempre deu. Fico indignado com esse papo de que o cara não quis jogar, mas futebol com o Nash ele joga…
    Desculpem meu “tom” (e meu exagero em usar aspas hoje) mas acho muito engraçado que ocnbram patriotismo de alguém mesmo que ponha em risco sua situação com o empregador e sua carreira…

  3. Comentário por Sanderson — June 27, 2008 @ 10:36 pm

    No meio desta confusão de opiniões eu queria aqui deixar uma pequena reflexão sobre uma das colocações de Leandrinho na entrevista concedida ao SPORT TV. Não entendo como Leandrinho pôde falar que o técnico teria estabelecido um prazo muito curto para ele resolver a sua situação. Não me parece que ele possa estar falando isso sério. Dado que ele já sabia muito bem das datas de apresentação da Seleção Brasileira. Leandrinho foi, no mínimo, incapaz de persuadir o departamento médico do Phoenix Suns para realizar os exames em uma data anterior à apresentação. Portanto, ele deveria assumir que o tal “pouco tempo” é muito mais de sua responsabilidade do que do técnico. Errado estaria o técnico se esperasse mais tempo por ele. Alguém pode argumentar que Leandrinho estava falando apenas do tempo para a chegada do Laudo Médico, mas como falar de pouco tempo quando se marca um exame médico para depois da data de apresentação da seleção e se justifica isso apenas com o fato dos médicos estarem de férias. Convenhamos, difícil de engolir!

  4. Comentário por lisangelo — July 4, 2008 @ 5:25 pm

    Quem nao gostaria de contar com forca maxima na selecao? Eu gostaria. Mas eh evidente, ao menos para mim, que se nao ha um boicote tambem nao existe muita vontade de encarar essa selecao da CBB que esta ai. E eu nao culpo os atletas por nao quererem se envolver com tanta incompetencia.

  5. Comentário por Adriano Albuquerque — July 4, 2008 @ 6:08 pm

    não sei se é realmente o caso, se os jogadores não têm vontade de encarar a seleção e o boicote está se configurando. afinal, lembrem-se, o Leandro e o Anderson foram dois dos mais ferrenhos opositores ao boicote do Nenê alguns anos atrás, e o Leandrinho trabalhou duro pra convencer o Nenê a jogar no ano passado. na verdade, eles sabem que um boicote ganharia muito mais força com o Brasil na Olimpíada do que na situação atual. eu considero tristes coincidências e situações negativas, que são ampliadas e multiplicadas pelo momento ruim que se arrasta no nosso basquete

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