Publicado por Adriano Albuquerque
Quem vê o “dublê de Papai Noel” andando por Cabo Frio vestindo a camisa do Fluminense dificilmente imagina que se trata de um dos maiores jogadores da história do basquete carioca e brasileiro. Sérgio Macarrão, único medalhista olímpico da história do Botafogo de Futebol e Regatas, vice-campeão mundial com a Seleção Brasileira e ex-jogador de todos os quatro grandes do Rio de Janeiro, hoje é um vovô-garoto de 63 anos, coordenador técnico do time do Cabo Frio/Sika, semifinalista do Campeonato Carioca Adulto de Basquete e um dos responsáveis pelo projeto que vem transformando o basquetebol em uma das atrações da garotada da cidade, saindo das sombras do futsal, esporte soberano na cidade litorânea do estado.
Curioso é saber que o próprio Macarrão, tio de Marcelinho e Duda Machado, começou no futsal e só foi jogar basquete no meio da adolescência. Esta é apenas uma das milhares de histórias que o ex-lateral contou ao BasketBrasil em uma entrevista exclusiva que reviveu os bons e áureos tempos do basquete brasileiro, em que conquistar uma medalha de bronze olímpica, hoje um feito inalcançável para nossa Seleção masculina, era considerado um “fracasso”. Vale a pena ler cada linha das longas respostas do falante Macarrão, que despertam uma nostalgia de um tempo que a maioria dos atuais fãs de basquete não viveu, mas gostaria muito de ter presenciado. Afinal, como o próprio Macarrão disse já com o gravador desligado, “o brasileiro gosta muito de basquete, é um esporte que tem muito a ver com o nosso estilo, com a nossa identidade. Pode acreditar que quando aparecer um (Ricky) Rubio no nosso basquete, o público volta”.
Sérgio já está fazendo sua parte para que esse jogador apareça, e você vai ler mais sobre seu projeto em Cabo Frio na semana que vem. Por ora, fique com as memórias de um jogador que foi às Olimpíadas com apenas dois anos a mais do que Rubio em Pequim, e que jogou com brasileiros tão respeitados internacionalmente quanto Rubio, Pau Gasol e Juan Carlos Navarro.
BASKETBRASIL - Como começou a paixão pelo basquete?
SÉRGIO MACARRÃO - Eu fiz esporte desde criancinha e minha paixão era pelo futebol. Até os 15 anos, joguei futebol de salão, mas fiquei muito grande pra isso, e eu também era um pouco medroso também, porque era muito comprido e muito magrinho - não era “Macarrão” à toa. Aí comecei a ter dificuldade para jogar futsal, me machucava muito, era muito folgado e arrumava confusão demais. Na família, tinha um primo mais velho chamado Amauri, que era goleiro do futebol de campo do Botafogo, jogador da seleção brasileira de water polo, jogava basquete e era nosso grande ídolo. Naquelas reuniões de Natal, ele disse, “Vai jogar basquete no Botafogo!”, e um dia eu, meu irmão (Renê, pai de Marcelinho e Duda) e um primo, fomos ao Botafogo. Chegamos ao Botafogo no dia 28 de agosto, e cinco dias depois, dia 3 de setembro, eu já estava jogando no juvenil. Eu era compridinho, pulava muito, o técnico já gostou de mim e me colocou no time. Em uma semana, deixei de ser jogador de futsal para ser jogador de basquete.
As coisas aconteceram muito rápido comigo. Minha mãe dizia que eu nasci “de bunda pra lua (risos), porque pra você as coisas estão dando muito certo, com muita sorte mesmo”. Como todo jogador, tem dias que você joga muito bem e tem dias que você joga muito mal, e eu tive sorte de quando joguei muito mal não tinha ninguém, e quando joguei muito bem, as pessoas-chave me viram. As portas foram se abrindo muito rapidamente e tive padrinhos, caras que gostaram do meu jogo e começaram a me empurrar. Eu fui jogar o Campeonato Brasileiro juvenil, numa época que o Rio de Janeiro era fraco, ficamos em terceiro, mas joguei muito bem. Quando eu voltei, o Renato Brito Cunha, técnico da seleção carioca adulta, soube que aquele garotinho que ele conhecia tinha jogado muito bem, e um mês depois ele convocou a seleção pro Brasileiro Adulto, e me incluiu entre uns três daquele time juvenil que iam treinar por cinco meses antes do campeonato. Aí teve um que pediu dispensa, outro brigou com o treinador, foi cortando jogadores, e eu fui ficando.
Com 16 anos de idade, eu estava num time com quatro campeões mundiais: Fernando Brobró, Valdir Bocardo, José Maciel Senra (Zezinho) e Fritz, tinha o Renê Salomão, titular da Seleção Brasileira, que não foi campeão do mundo por acaso… E aquele molequinho de 16 anos no banco. E o Renato Brito Cunha começou a me apresentar pra todo mundo como se eu fosse um grande jogador, e eu era só um molequinho. Os cobras do time começaram a me tratar como o protegidinho deles, e então eu nunca sofri rejeição nenhuma.
Na primeira Seleção Brasileira que eu fui, três anos depois, com 19 anos, tinha o Wlamir Marques, no dia do último treino, a gente disputando a última vaga para ir à Olimpíada. Ia ter um coletivo contra a seleção paulista universitária, a gente estava concentrado há três meses, parecia que era uma decisão de campeonato, todo mundo nervoso. Aí o Wlamir me chamou no canto, eu era um menininho só, sentou do meu lado e disse, “Olha, moleque, treina com vontade hoje que você vai pra Olimpíada”. Eu disse, “Ah, você tá de sacanagem comigo”. Ele respondeu “Não, não estaria falando contigo à toa. Bota pra f…, pois você está na briga e no que eu puder, vou te ajudar”. Até hoje me lembro e me emociono com isso, porque, pra mim, ali, eu fui pra Olimpíada por causa do papo do Wlamir. Aquelas coisas que ele me disse ali… Acabei com o treino. Quando terminou o treino, eu tinha certeza que eu ia e não deu outra. O Renato cortou todo mundo e me levou.
Antes disso, quando você sentiu que se tornaria um grande jogador?
Olha, eu nunca senti isso, nunca me senti um grande jogador. Eu joguei numa geração que tinha tantos jogadores muito bons que eu nunca me senti um grande jogador. Eu passei minha vida toda querendo jogar metade do que o Alemão (Wlamir Marques) jogou. Meu ídolo era o Wlamir. Quando eu o vi jogando pela primeira vez, quando estava naquela seleção carioca adulta, com 16 anos, o campeonato foi em Franca, o time de São Paulo era Wlamir, Rosa Branca, Ubiratan, Vítor, a Seleção Brasileira quase todinha, eu o vi e pensei: “Quero ser igual a esse cara”. E eu sabia que nunca ia chegar ao que ele era. Eu comecei a desconfiar que eu tinha jogado bem com o tempo, com as coisas que as pessoas diziam pra mim. Eu fui parar na Seleção Brasileira, mas joguei junto com Wlamir, Amaury Pasos, Rosa Branca, Ubiratan, fiquei muito feliz, mas eles que eram os grandes jogadores, eu sabia que não era tão bom quanto eles. Eu fui um cara com algumas qualidades e dei sorte de jogar bem as partidas que precisava jogar bem.
Você vivia de basquete? Naquela época dava para se viver de basquete?
Não, a gente ganhava dinheiro. Aconteceram coisas comigo por causa disso… Na época era muito difícil de ganhar dinheiro. Eu sou cria do Botafogo. Quando eu comecei a evoluir e voltei daquela seleção adulta, com 16 anos, ninguém me ofereceu nada. No ano seguinte, o Rio foi campeão brasileiro, e no ano depois, fomos bicampeões juvenis e eu fui vice-cestinha, aí o Botafogo me chamou, porque já tinha um monte de times querendo me tirar de lá. Aí o Botafogo me ofereceu uma graninha e passou a me dar uma merrequinha. Por causa dessa merrequinha que a gente ganhava, o João Saldanha fez crônicas no Jornal do Brasil chamando a gente de “amador marrom” e que nós éramos os responsáveis pela desgraça do Botafogo. A gente ganhava dinheiro escondido, com muita vergonha. Esse dinheiro era pra torrar com as namoradas, jogar boliche, ir ao cinema, comprar roupa… Hora nenhuma a gente fazia do basquete a vida.
Papai me dava a maior força, pagou um bom colégio, eu ia fazer arquitetura na faculdade porque era bom de desenho e matemática, mas como mexia muito com esporte, acabei indo pra educação física. O tempo foi passando, a gente foi perdendo um pouquinho a vergonha, já não era mais tão feio ganhar dinheiro, mas aí eu já tinha 24 anos e não estava mais pensando em viver do basquete. O dinheiro era só pra torrar com o mulherio, as coisas que a gente gostava de fazer, ganhei um carro pra sair do Botafogo…
Quando eu saí do Botafogo pra ir para o Vasco, os clubes romperam relações. Na sala de imprensa do Botafogo, tinham duas fotografias, uma do Mané Garrincha e uma do Macarrão com a medalha olímpica de 1964. Dizem que aquela fotografia foi quebrada, destruída quando eu fui ganhar dinheiro no Vasco. Então, essa passagem de amador pra ganhar dinheiro foi meio traumática. Depois que eu saí do Botafogo - não foi erro, eu tinha que sair de lá para fazer minha vida no basquete - mas nunca mais encontrei um Botafogo, o basquete mudou, porque o Botafogo, pra mim, era minha casa. Quando fui pro Vasco, saí de casa, fui ganhar dinheiro, até os 35 anos, mas sempre com o mesmo espírito, eu nunca vivi do basquete, era um dinheiro só pra tirar onda.
E o que você fazia profissionalmente? Dava aula ao mesmo tempo?
Eu cheguei a ter sete empregos. Vida de professor mesmo. Acordava às 5h da manhã, fazia a barba porque trabalhava em regime militar, tinha de ser de barba feita, saía de Ipanema para chegar ao Centro de Instrução Almirante Graça Aranha na Avenida Brasil, Marinha Mercante, dava a primeira aula às 6h, e tinha sete empregos pra treinar das 19h às 21h30min, após trabalhar o dia todo. Percorria o Rio de Janeiro o dia inteiro de carro. Era Casa do Marinheiro, Marinha Mercante, duas matrículas no Estado, técnico do infanto-juvenil do Fluminense, Cândido Mendes… Depois eu larguei a Marinha e fui pra Escola Americana do Rio de Janeiro, ali na Gávea, na subida pra Rocinha, sempre na mesma batida. Pra não dizer que eu não ganhava nada com basquete, eu tinha salário de jogador e dava treino pro time de infantil. Quando eu saí do Fluminense, também me deram uma categoria de base, eu ia ganhando a vida como professor, mas sempre com aquela graninha de basquete também.
Você jogou pelos quatro times grandes do Rio, e você contou que quando você deixou o Botafogo, o clube levou mal. Tinha essa cobrança também por parte da torcida, por causa das trocas de time?
Só na mudança do Botafogo pro Vasco, mas ao mesmo tempo, o que aconteceu é que o Botafogo fez um trabalho na base, fez um time de garotos que era o cão mesmo na minha geração… Epaminondas Leal, o técnico, é até hoje citado como uma das figuras mais carismáticas do basquete do Rio. Ele fez um trabalho no Botafogo, que de 20 meninos, uns cinco ou seis tiveram passagem por Seleção Brasileira. O trabalho do cara era excepcional mesmo, e o momento do basquetebol do Rio também. Em seis anos, o Rio ganhou cinco campeonatos brasileiros juvenis. Se você fizer uma relação, eu te dou uns 20 nomes do Rio que passaram pela Seleção Brasileira. O que é passagem? Quando o Brasil ia para uma Olimpíada, os 12 melhores iam, todo mundo queria ir, no Mundial também, mas quando tinha um Sul-Americano, aí o Edvar de São Paulo pedia dispensa por causa do trabalho, o Menon tinha que dar plantão, já tinha ficado três meses de fora por causa do Mundial. Todo mundo pedia dispensa, e aí entravam os garotos, e o Rio de Janeiro encheu de moleques, tudo da mesma idade. Eu duvido que tenha tido uma geração no Rio tão boa quanto a da minha época, entre 1962 e 68.
Apesar de eu ter mudado muito de clube, quando eu saí do Botafogo e fui pro Vasco, teve aquele problema, mas não houve um sentimento de revolta, porque ali dentro do Botafogo, era como se fosse minha casa. Meu irmão continuou jogando lá, meus amigos continuaram lá, meu pai era diretor social do Botafogo. Eu saía do treino do Vasco e ia para onde estavam meus amigos de lá, todo mundo continuava amigo. (Quando ainda jogava lá) Eu entrava no Botafogo às 14h e saía às 23h, conhecia todo mundo, do porteiro ao jogador de futebol. Na época, os jogadores do futebol namoravam as garotas do basquete, todo mundo ia ver o futebol jogar, era amigo de todo mundo, viajava junto. Muita gente achava que eu era torcedor do Botafogo, mas eu sempre torci pro Fluminense, então tem várias histórias, várias histórias. Eu depois fui jogar no Fluminense, que era meu clube de coração de futebol, e embora eu fiquei muito feliz de estar lá, não era a mesma coisa do Botafogo, que era família mesmo.
O Botafogo era um negócio na época, que todo mundo, atletismo, pólo aquático, voleibol, basquete, era tudo unido. Eu jogava basquete, fazia salto em altura, namorava uma garotinha do voleibol, treinava pólo aquático na piscina, então era uma família inacreditável. Quando eu saí, não encontrei nunca mais aquilo, mas era um caminho que eu não podia deixar de trilhar, porque o Botafogo achava aquilo tudo da gente, mas não botava. Nego ficava no ouvido o tempo todo, oferecendo carro 0km, emprego, faculdade, salário… Cada um dava mais, o Corinthians indo lá em casa pra falar com meu pai, todo mundo querendo, e eu ali agarrado ao Botafogo. No dia que eu fui pro Vasco, o Botafogo ficou aborrecido, foi lá e tirou todo mundo do Vasco. Aí foram campeões brasileiros do adulto, foram jogar campeonato mundial de basquete, tudo porque o Macarrão tinha saído para o Vasco, e tirou três ou quatro jogadores deles. Aí eu continuei sendo vice-campeão (risos). Mas até hoje, por causa disso, tem gente que acha que eu sou botafoguense, embora eu nunca tenha escondido que era tricolor.
Um dia eu fui ver o Botafogo enfrentar o Fluminense no Maracanã, nos anos 60, e o Altair, que era meu ídolo, lateral-esquerdo, marcava o Garrincha. Eu era amigo de todo mundo, e todos sabiam que eu ia pra social do Botafogo pra torcer pelo Fluminense, mas “como era o Serginho, deixe ele ali que não tem problema” (risos). O Altair acabou com o Garrincha naquele dia, mas quando tava acabando o jogo, faltando dois ou três minutos, o Garrincha passou cinco vezes pelo Altair, rolou pro Amarildo, que botou pra dentro, 1 a 0 Botafogo. Todo mundo me sacaneou… Aí, o Dr. Ney Cidade Palmeiro (presidente do Botafogo entre 1964-67) saiu lá de atrás, me chamou, me pegou pela mão e levou ao vestiário do Botafogo. Cheguei lá, estava o Garrincha sentado, sendo costurado, com dois ou três cortes de 3cm em cada perna, mais três hematomas de dois dedos em cada perna. O Ney disse: “Vim te apresentar ao Garrincha pra ver se você ainda acha que o Altair é muito bom”… E o Mané disse: “Isso daí é porque ele é meu amigo, hein! Porque quando não é o Altair, é muito pior do que isso”… Eu reconheci: “Você é um leão mesmo”…
E tem mil historinhas dessas que vivi no Botafogo. Não me arrependo de nada do que eu fiz, mas minha saída de lá foi uma página virada inevitavelmente. Eu tinha que fazer aquilo, mas me fez uma falta danada. E depois, virou profissional, não tinha a mesma coisa.
Eu estou sentindo que o Botafogo foi o time mais especial em que você jogou, que você teve uma relação mais intensa, mas em clube, qual foi o melhor time que você jogou?
Meu time do Fluminense foi pentacampeão estadual. Era um timaço-aço-aço. Tinha o Marquinhos de pivô. Só de você ter o maior pivô da história do basquete brasileiro no seu time… Nunca mais teve um Marquinhos na Seleção Brasileira. Até hoje o Nenê é bom pra caramba, mas quando que ele fez 35, 40 pontos por jogo? Ele é um grande pivô, mas que entra com força física, muita impulsão, pega muito rebote, dá muita porrada, mas o Marquinhos fazia isso e ainda metia 40 pontos. E aquela foi a única época em que o melhor jogador do Brasil era o pivô, porque até na geração anterior, o Ubiratan era um grande pivô, mas era um reboteiro, não era um grande pontuador, os grandes jogadores da geração dele eram os arremessadores - Wlamir, Rosa, Vítor… A geração do Marquinhos foi a única vez que o basquete do Brasil saiu da periferia para mandar a bola lá dentro. Depois, voltou a ser bola lá fora para o Oscar e Marcel meter. Então o Fluminense é o melhor time em clubes que eu joguei.
Você conquistou títulos sul-americanos, vice-campeonato mundial, medalha de bronze olímpica… Qual conquista foi mais importante para você?
Minhas medalhas estão todas guardadas no fundo de um armário, eu não cultivo essas coisas. Tenho amigos que exibem, penduram, eu não. Eu guardo. As lembranças, o valor delas estão no que eu lembro, nas histórias eu eu fiz, nos amigos, não é o título em si, é o que aconteceu. Quando eu lembro da Olimpíada, fui te contar a história do Alemão e quase chorei aqui. Não é pela medalha, é pelos acontecimentos. O vice-campeonato do mundo, embora o Mundial não ter o mesmo peso da Olimpíada - e não é porque um é segundo e o outro é terceiro - mas no vice-campeonato mundial, eu fui muito mais útil. Não era titular do time, mas joguei muito tempo, participei intensamente dos jogos, joguei muito bem na decisão, saí com a sensação de que joguei pra cacete num jogo muito difícil e muito importante. Tecnicamente tem uma importância muito grande pra mim. Na Olimpíada, eu era o menininho do time, eu joguei, mas as partidas que eu entrei, eu não tinha muita importância no jogo. Eu joguei contra os Estados Unidos 20 minutos porque não tinha chance de ganhar; eu joguei outros jogos que quando o Renato me botou, o jogo já estava ganho. Eu não entrei pra decidir nada, ao contrário do Mundial de 70, então se eu tiver de escolher, escolho o Mundial, não só pela colocação, mas pela minha participação.
E como foi a experiência olímpica? Você já contou que foi importante só de entrar no grupo, e como foi quando chegou lá?
Eu era o protegidinho de todo mundo. Então quando a gente chegava no destino, o Sucar, que era um dos cobras, dizia: “Me dá seu passaporte, menino! Pra você não perder e atrasar a vida de todo mundo na hora de ir embora!” Nessa Olimpíada de 1964, eu era tratado como criancinha. Eu ficava no quarto com o Mosquito, cujo prazer era me imobilizar! (Risos) Todo dia eu apanhava, todo dia o Mosquito me finalizava, se eu não batesse, não acabava a briga. Eu estava deslumbrado mesmo. Tinha vezes que eu parava no meio da Vila Olímpica e pedia para me beliscarem pra ver se era verdade, estava numa euforia danada. Minha conquista ali foi ter ido à Olimpíada, e esses caras me ensinaram o valor que tinha jogar pela Seleção Brasileira, então o mais importante de tudo para mim era provar que merecia estar ali. Aquela geração foi a maior da história, os resultados provam isso. De 1954 a 70, o Wlamir foi vice-campeão mundial em 54, campeão do mundo em 59, medalha olímpica em 60, campeão do mundo em 63, medalha olímpica em 64 e vice mundial em 70, e foi campeão em todos os Sul-Americanos naqueles 16 anos. Hoje em dia, nem campeão sul-americano o Brasil é mais.
Eles eram absolutos mesmo. Na primeira vez que eu troquei de roupa pra enfrentar a URSS, eu vi a União Soviética com medo do Wlamir e do Amaury. Eles ganharam um jogo duro pra caramba, 56 a 53 (antes das Olimpíadas), que a gente só não ganhou porque estourou os 30s finais, que nós íamos meter a última bola, os soviéticos se cagavam pra enfrentar o Brasil. A Iugoslávia se concentrou por sete meses pra pegar o Brasil e tomou um pau. No aquecimento, nos corredores do ginásio, durante as preliminares, o Amaury veio pra mim e disse: “Meu filho, hoje você vai me ver jogando”. A confiança que os caras tinham, e a gente tinha perdido para o Peru na estréia. Brasil campeão mundial, na minha estréia na Seleção, perdeu para o Peru! Aí no dia seguinte, jogando tudo contra a Iugoslávia, que tava concentrada há sete meses, você não imagina o que o Brasil fez com eles, com Amaury, Bira, Rosa, Wlamir, todo mundo fazendo chover.
Isso tudo pra mim foi aprendizado, essas pessoas que criaram na minha cabeça o que é o padrão de ser um grande jogador. Hoje em dia, com meus atletas, eu me vejo cobrando coisas que foram ensinamentos deles mesmo, qual tipo de visão você tem de ter quando está se expondo numa quadra.
Os outros times tinham esse respeito todo quando nos enfrentavam? Tinham um respeito maior conosco?
Tinha o primeiro nível do basquete internacional, que eram os Estados Unidos, a União Soviética - que não era a Rússia não, era Rússia, mais Lituânia, Ucrânia, Letônia, tudo aquilo - a antiga Iugoslávia, que era soma daquilo tudo ali também, e o Brasil. Todas as competições que nós íamos, o Brasil era candidato. Joguei três Mundiais, e num fui vice, no outro fomos terceiros e no último que foi um ano que teve muita coisa, muita gente não pôde ir, e ficamos em quinto lugar. Pra você ter uma idéia, eu fui pra Olimpíada feliz da vida, os caras eram bicampeões do mundo e me diziam: “Essa competição aqui é a mais importante da sua vida, aproveite ao máximo, é a maior emoção que um atleta podia ter”, a gente já se sentia diferente só de estar na Vila Olímpica. Às vezes você estava comendo e sentava o Abebe Bikila, bicampeão olímpico de maratona, na sua frente. A gente não conversou porque não falávamos a mesma língua, mas trocamos pins. A emoção maior era fazer parte daquele time, estar com aqueles jogadores.
Quando a gente voltou ao Brasil, chegamos às 4h da madrugada, meus amigos do Botafogo estavam todos esperando no aeroporto, com faixa, fazendo festa. Fui pra casa dormir, e tinha um jogo de basquete feminino no dia seguinte, fui lá com eles pra continuar a festa. Eu tava me sentindo o máximo ainda, dormindo agarrado com a medalhinha, e a rádio Intercontinental estava transmitindo o jogo. Entrei no ginásio e me chamaram lá em cima para dar entrevista, a minha primeira depois de medalhista olímpico. “E aí Sérgio Macarrão, como foi a viagem? Está feliz?”, “Muito feliz”, “Ô Sérgio, me deixa te fazer uma pergunta: como você explica o fracasso do basquetebol brasileiro?” Aquilo foi como jogar um balde d’água na minha cabeça, nunca tinha avaliado sobre este aspecto. “Que fracasso é esse? Eu vou pra aquele lugar, acontece tudo o que aconteceu, e o cara está dizendo que eu fracassei?” Isso mostra a exigência que se fazia sobre o basquete na época. O Brasil era bicampeão do mundo, vai pra uma Olimpíada e chega em terceiro? Que p… é essa?
Era que nem o futebol de 1978, que não perdeu nenhum jogo, mas ninguém cita. Era um timaço, saiu por causa daqueles 6 a 0 da Argentina no Peru, foi terceiro lugar e são citados como um fracasso. Aí eu realizei, não fiquei chateado com o cara, mas eu não tinha pensado daquele jeito, que era um fracasso. E nunca mais, depois de 64, tivemos um resultado daquele, que na época foi considerado um fracasso. Naquele dia, cheguei p… da vida em casa. Aí meu pai veio falar comigo, mandou eu lembrar de como foi o campeonato, disse que fracasso era só da cabeça do cara. Aquilo serviu pra eu dimensionar no que eu estava me metendo. Foi a primeira Seleção que eu joguei, e eu achava que era tudo festa, e nada disso; se você não ganhar, volta e vai pra vala. Não interessa se jogou bem ou não, o que interessa é o resultado que você traz. Aquilo não me abateu, mas me trouxe pra uma realidade que eu não tinha noção, só estava feliz de ter ido à Olimpíada. Hoje em dia, tudo o que o basquete brasileiro quer é ir à Olimpíada. Depois, em 68, fui novamente e não era titular, mas já era um dos caras, decidi jogos, meti bola pra caramba, mas terminamos em quarto. Aí é que eu me senti um fracassado mesmo! (Risos)
E que outras experiências você teve lá em Tóquio, na Olimpíada?
Aquelas casas de banho do Japão eram um horror… (Risos) O Wlamir, o Rosa, esses caras me paparicavam, me levavam nessas casas de banho, onde as mulheres te dão um banho e terminavam te masturbando (Risos). Mas lá no Japão tinha uns lugares que não dava para entrar, era fechado apenas para japoneses. Na época, eu era focado no basquete mesmo, a gente não tinha muito tempo pra fazer outras coisas, você treinava de manhã e jogava à tarde. A gente tinha um passe de metrô que podia ir aonde quisesse, saíamos em grupo para ir a uns cantos pra comprar máquina de fotografia, uma lembrança, mas voltava logo pra Vila Olímpica. No México (68), a gente saiu um pouco mais. Teve um Pan-Americano em Winnipeg que o mulherio não dava sossego. Era mulher de manhã, de tarde e de noite. Aí o Brasil foi parar em sétimo lugar! (Risos)
O basquete era mais ingênuo naquele tempo, no mundo, tinha menos grandes países, era menos desenvolvido?
O americano sempre foi o melhor, mas a distância naquele tempo era muito maior. Eu, por exemplo, ouvia falar, mas nunca tinha visto eles jogando. Quando eu vi pela primeira vez a seleção olímpica americana em 1964, fiquei impressionado com um padrão de basquete que eu não conhecia. Tinha assistido ao Mundial de Basquete de 63 no Rio, não era um Pan-Americano ou Olimpíada que eles levavam o time TOP, mas tinha vários grandes jogadores como Willis Reed, Lucious Jackson, Jerry Shipp, era um timão. Mas quando eu vi o time olímpico americano, que era o filé do filé mesmo, eu estava vendo pela primeira vez aquilo. E eu joguei contra eles por mais de 20 minutos porque o jogo foi muito fácil para eles, o Renato poupou os cobras e botou a gente. Mesmo assim, no final do jogo, a porrada comeu. Foi 83 a 57, e isso para os nossos padrões era uma surra f… A gente não engolia uma derrota dessas, e no final começou a voar cotovelo, encarar, etc.
Nosso time tinha finesse, mas pra ganhar do Brasil, tinha que jogar muito forte mesmo, porque no que dependesse da raça, nosso time era muito raçudo. O Mosquito era um jogador de 1,78m que marcava homem de 1,96m. O técnico escolheu ele pra marcar o Shipp, que era o cestinha dos EUA, e o Jerry Shipp não andou, com o Mosquitinho marcando ele no coração mesmo. Eram jogadores com uma atitude invejável. Quando você entrava, não podia ser menos do que eles. Tinha uma raça exemplar.
Hoje todo mundo tem acesso às informações, aos métodos de treinamento americanos, e a impressão é que o Brasil não acompanhou a evolução do esporte no resto do mundo. Você concorda com isso?
Se a informação foi generalizada, eu que pergunto a você: por que o Brasil não teria evoluído também? Os pensadores brasileiros, os técnicos, são incompetentes? Não. O Hélio Rubens, o Lula (Ferreira), você pega até o Marquinhos, daqui de Cabo Frio. Ele pode não saber o que aconteceu ontem na NBA, mas academicamente, ele tem acesso a tudo. Nós fomos enfrentar o Flamengo outro dia no Carioca e o Paulo Chupeta nos emprestou 43 DVDs de treinamento. Ele vai fazer 43 cópias daquilo, eu também, vamos assistir a cada um e vamos colocar isso no nosso treinamento. Então qual é o problema do basquete brasileiro? Não é isso que vai fazer o basquetebol ser grande ou pequeno, é o jogador. O que aconteceu naquele momento do Brasil: aconteceu de descobrirem que tinha o Wlamir, de 17 anos, em São Vicente, e o Kanela deu chance na Seleção Brasileira, assim como o Kanela descobriu que tinha um cara careca que jogava voleibol que era um monstro jogando basquete, e tirou o Amaury do vôlei.
Aconteceu na mesma época de ter Rosa Branca, Mosquito, Jatyr, Waldemar, Pecente, Algodão em final de carreira… O que faz um time vencedor não é só treinamento, você pode ter todo o treinamento do mundo, mas se você não tiver jogador… Não é que o Brasil não tenha jogadores, tem grandes jogadores também. Só que a fase é de entressafra. Imagina nos últimos 10 anos, toda vez que tinha que meter uma bola no ataque, pra quem ia a bola, quem decidia o jogo? Era o Marcelinho. Mas por que era o Marcelinho? Porque ele quer decidir, ele quer a bola pra isso. E tem momentos que a bola fica rodando na mão de todo mundo e ninguém chama a decisão. Naquele momento, a geração era muito forte, mas era muito forte por quê? Porque quando chegava naquela hora que a bola pesava, e alguém tinha que acertar, tinha um monte. Não podia deixar o Wlamir sozinho, não podia deixar o Rosa Branca.
Adriano Albuquerque
Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
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