Publicado por Redação BasketBrasil
Eugenio Goussinsky
A ala cubana Ariadna Capiro Felipe, do time de basquete feminino AD Santo André, está no garrafão, posicionada para um lance livre. Acaricia a bola, bate-a três vezes no chão e fecha os sedutores olhos levemente puxados, que se harmonizam com sua pele negra. Neste momento, o tempo para.
Surgem então, imagens que se multiplicam em sua mente, frases soltas sem significado aparente, sons que se misturam com os do ginásio abafado. Que contam sobre seu passado, que acenam para o seu futuro. Trazem a fragrância doce da esperança misturada com o amargo da dor, da distância, da saudade. Ela mesmo repete que um único arremesso carrega em sua trajetória inúmeros significados.
Isto porque, por opção, a jogadora de 26 anos, 1m78, deixou seu país de origem, em busca da independência financeira. Mesmo ciente de sua decisão, ocorrida há cinco anos, não é fácil deixar a família, a terra natal para, caso persista o modelo cubano de partido único, nunca mais poder voltar. Arremessou-se a um caminho sem retorno, na esperança de que seus desejos não batam no aro.
“Todo mundo pensa em crescer. Abri mão da companhia dos familiares para ajudá-los de outra maneira, ganhando dinheiro e dando-lhes conforto”, diz a jogadora.
Ariadna não se enquadra na situação de outros atletas compatriotas que, impedidos de se profissionalizar, conforme obriga o regime de Cuba, abandonam as delegações, enfurecendo o líder Fidel Castro e se tornam exilados políticos. Ela conta que saiu de maneira legal, por carta-convite de autoridades. Foi um processo demorado, que a fez parar por um ano, após abandonar a seleção cubana, pela qual atuou por quatro anos e foi campeã pan-americana em 2003.
Primeiro jogou na França, onde sentiu a pontada aguda da solidão. A chegada à América do Sul trouxe um alívio. Passou pelo Equador e, desde 2006, está no Brasil, onde defendeu Marília, Catanduva e Ourinhos, conquistando o título brasileiro, até chegar a Santo André. Seu visto de trabalho está em dia.
“Há afinidade entre os latinos, as meninas aqui sabem da minha situação, me ajudam, se tornaram minha família. A própria técnica Laís é uma espécie de mãe para mim”, destaca, sobre a experiente treinadora da equipe andreense.
Sua verdadeira família, contudo, é insubstituível.
“Respeito o regime cubano, sou grata pela formação que obtive. Saí por questões econômicas e não políticas. Quero dar mais conforto à minha família, o motor que me faz seguir em frente.”
Nas conversas por MSN com a mãe, Ana Rosa, a quem só viu uma vez desde sua saída, e com o único irmão Antuan, fisioterapeuta em Miami, Estados Unidos, ela recebe doses de estímulo. E assim que tiver estabilidade financeira, pretende reunificar a família, fora de Cuba.
“Está indo devagar, mas é o meu objetivo”, brinca. “O basquete não é como o futebol no Brasil, não oferece salários tão altos a quem atua em equipes de destaque.”
Por uma cidade – O pai de Ariadna, Armando Capiro, foi um jogador consagrado de beisebol, esporte muito popular no país. Em sua história, também teve a chance de deixar Cuba. Ele recebeu uma proposta milionária de uma equipe americana, praticamente um cheque em branco. Sua recusa imediata, preferindo seguir em Cuba em nome da revolução, indica a mudança dos tempos.
“Ele se orgulha de seu ideal, mas respeita minha decisão. Cuba oferece serviços básicos de qualidade. Mas a busca de conforto só é possível fora. Hoje há um materialismo saudável que predomina em muitos casos”, diz Ariadna.
Ela, porém, garante que não perdeu o amor pelo esporte. “Não há como jogar sem amor. Desde os 11 anos estou no basquete, faço isso como diversão e ainda sou remunerada.” Mesmo não jogando em seu país, diz que sente-se muito bem em Santo André. “É uma experiência especial. Um orgulho jogar por milhares de pessoas, seja por uma cidade ou um país. Isso também é importante no esporte.”
Ariadna não sabe quando irá contemplar de novo a luz turquesa do mar do Caribe. Nem o pôr do sol no horizonte de Havana, tingindo de vermelho esta cidade histórica e costeira, onde ela nasceu.
“Era uma menina hiperativa, corria para todo o lado. Foi um psicólogo que sugeriu o esporte para mim.” Essas lembranças permanecem dentro dela: o cheiro da maresia, a avenida El Malecón, as vozes infantis das crianças correndo pelas ruelas. Seu horizonte agora é outro. Ela, então, abre os olhos, mira a tabela, encara o mistério, ouvindo frases em português. Neste jogo do destino, resta torcer para que mais este arremesso de Ariadna, junto com seus sonhos, tenha endereço certo.
Diário do Grande ABC
(Painel do Basquete Feminino)
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