Arrependido, armador Nezinho quer voltar à Seleção Brasileira

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10/07/2008 | 12:47

Publicado por Linelson Y Castro

O armador Nezinho, que assinou contrato de dois anos para jogar no Winner Limeira, concedeu nesta terça-feira uma entrevista exclusiva ao BasketBrasil. Depois de um conturbado Pré-Olímpico de Las Vegas em 2007, onde ele recusou-se a entrar em quadra no final de uma partida depois de um pedido do treinador Lula Ferreira, Nezinho está arrependido e quer voltar para a Seleção Brasileira, comenta sobre o caso Iziane e os pedidos de dispensas dos brasileiros da NBA. Confira as perguntas feitas pela nossa equipe e por alguns leitores:

BASKETBRASIL: Marquinhos declarou que havia um racha no elenco brasileiro durante o Pré-Olímpico de Las Vegas, fato que foi desmentido pelos outros jogadores. Existia um pacto entre os jogadores para lavar a roupa suja dentro de casa, pois as divergências entre jogadores eram visíveis?

NEZINHO: Eu não vi nada visível, só se foi dentro do quarto. Estava eu e o Alex no mesmo quarto e não vimos nada disso. E não havia nenhum pacto dos jogadores para lavar roupa suja dentro de casa. Divergências entre jogadores ou comissão técnica são normais em qualquer trabalho. Aconteceram algumas coisas em Las Vegas, mas a maneira que o Marquinhos colocou, ele não se preocupou com o grupo. Se você tem problemas na sua casa, tem que resolver ali dentro.

BASKETBRASIL: Por que você se recusou a entrar em quadra em Las Vegas? Você se arrepende disso?

Claro, no mesmo dia fui ao quarto do técnico Lula e disse que tinha tomado uma atitude errada. Pedi desculpas a ele e a meus companheiros. No jogo anterior, o (Marcelinho) Huertas não havia entrado o jogo todo, ficou os 40 minutos no banco, e naquele jogo contra o Uruguai já estava 30 a 40 pontos e ele tinha colocado o Huertas. Voltamos para o segundo tempo e novamente ele colocou o Huertas e não me colocou. Então agora já foi, não vou jogar. Faltavam uns 3 minutos e uns 40 pontos de vantagem e o Lula me chamando, no momento achei que era a atitude certa, mas também não foi para gerar tudo que gerou. Foi um jogo que ganhamos por quase 40 pontos e eu era o 11º ou 12º jogador, não precisa tanta polêmica pela atitude que no mesmo dia eu assumi que tinha errado.

BASKETBRASIL:O técnico Moncho Monsalve ou alguém da CBB chegou a falar com você sobre uma possível volta à Seleção?

Não, nunca conversei com Moncho e nenhum integrante da CBB entrou em contato comigo. Até porque, nos cinco anos que estive na Seleção, também não tive nenhum contato assim antes de convocação ou pós-convocação. Ele convocam você e depois volta para seu clube e dessa vez foi a mesma coisa, eles não me convocaram, então não tive contato nenhum.

BASKETBRASIL:Você acha que o episódio de indisciplina do Pré-Olímpico de Las Vegas foi decisivo para não ser convocado, já que Fúlvio é um jogador que vem sendo contestado?

Com certeza, com uma atitude de indisciplina dessa, algumas pessoas aturam e outras não. No dia seguinte, o técnico Lula me colocou em quadra mesmo assim, minha atitude não foi contra ele. Algumas pessoas ficaram tristes com o que fiz, em um momento muito tumultuado para a Seleção, e foi uma lição de moral para mim, cada um tem e tenho que atacar e estou tranquilo quanto a isso. Agora vou ter que cuidar das minhas férias, que não tinha há cinco anos. Gostaria de estar no Pré-Olímpico mas não deu, a vida de profissional é assim, cheia de altos e baixos.

BASKETBRASIL: Como ficou sua relação com os outros jogadores da Seleção?

Ninguém ficou chateado comigo, mesmo porque Alex, Leandrinho, Marcelinho Machado e o Tiago (Splitter) são meus amigos e pedi desculpa a todos. Eu tenho noção do que fiz e tenho que acatar as consequências, como acatei sem falar bobagens de ninguém e sem agredir ninguém. Assumi minhas atitudes e agora tenho que acatar com as consequências e bola para frente.

BASKETBRASIL: Qual sua opinião sobre o treinador Lula Ferreira?

No Brasil, para mim é o melhor treinador que temos e mostrou isso na época que treinou o COC/Ribeirão Preto. Ele apostou em uma equipe jovem, mais talentosa, e deu certo, fomos campeões cinco vezes seguidas do Paulista, campeões brasileiros, vice-campeões sul-americanos, foi uma pessoa que me ajudou bastante, tem me ajudado, temos conversado muito, as coisas continuam as mesmas já que pedi desculpas a ele.

Diego - São Caetano do Sul/SP: Qual a sua relação com o Lula após o Pré-Olímpico de Las Vegas?

Não é a mesma que tinha antes, porque quando estávamos no COC eu ia à casa dele, é um cara que gostava de fazer almoços na sua casa e conversar com os jogadores. Eu, Alex, Renato e o Márcio íamos bastante na casa dele. Minha relação com ele é muito boa, agora estamos conversando também esse ano e a relação continua a mesma.

Gustavo Mastodonte - Uberaba-MG: Se você fosse o técnico da Seleção, Nezinho convocaria o Nezinho (mesmo com o fato da indisciplina)?

Eu acho que sim, pois tem que coversar com o Nezinho, ver se quer voltar à Seleção. Você estava errado? Você quer permanecer na Seleção? Sim, então OK. Se o jogador for importante para a Seleção, Nezinho convocaria Nezinho sim, sabendo que haveria retaliação e aprenderia com isso, teria que conversar com o grupo como conversei. Se a Seleção tivesse lugar e quisesse utilizá-lo, eu o convocaria.

Guilherme Gonçalves - Brasília-DF: Nezinho, você acha que a Seleção é essencialmente dividida entre os astros da NBA e os atletas que atuam no Brasil e Europa? Existe um tipo de “panela” por parte de quem joga nos Estados Unidos?

Sinceramente, nunca percebi isso, estou na Seleção há cinco anos, assim como o Alex e Leandrinho. Leandrinho está na NBA há muito tempo e nunca ouvi ele falar nada do pessoal da Europa, e não ouvi o pessoal da Europa falar algo dele. Se tiver algo lá dentro, é alguma coisa muito obscura e eu, que estava lá dentro, não percebia isso. Às vezes se cria alguma coisa para justificar algumas derrotas, alguns jogos que não foram bem sucedidos fazem a cabeça de algumas pessoas e acaba virando verdade. Lá dentro da Seleção, eu não sentia isso, foram jogos que não conseguimos ganhar e começam a inventar os porquês. Porque Nezinho não entrou em quadra, porque Marquinhos voltou (para o Brasil), porque o Nenê estava gordo, porque o Leandrinho não passa a bola. Não posso falar isso, não tem culpados, estavam todos no mesmo barco.

Renan - Santo André/SP: Você ainda tem pretensões de jogar na Euroleague ou NBA?

Na NBA já tive uma oportunidade de jogar uma Summer League em 2006, onde foi uma passagem meio tumultada pois tive que jogar na Seleção pela Copa América. Fiquei lá 20 dias, não tive oportunidade de treinar no jogo, eram partidas amistosas e fiz apenas treinos. Não tiveram a oportunidade de me ver. Mas meu grande sonho é jogar uma Euroleague, onde fiquei muito feliz de ver meus amigos (Alex e Splitter) participando do Final Four.

Gustavo Milgioretti- Americana-SP: Nezinho, qual a sua opinião sobre o caso Iziane?

Foi meio parecido, fico até meio sem palavras porque é difícil. Ela era uma jogadora importante e efetiva, acho que ela deveria ter entrado em quadra. Mas não podemos julgar a atitude dela de não entrar, o Paulinho (Bassul) teve a atitude dele de não colocá-la mais, então cada um sabe o que faz. Ela já é adulta e tomou a atitude de não entrar. O pior é que ela não pediu desculpas, então acho que foi isso que pesou. Não posso julgar ninguém, ela já é uma pessoa de idade e se ela foi certa ou errada não sou eu que vou julgar.

Henrique Lima - VIÇOSA - MG: Nezinho, mesmo sendo um armador com currículo de títulos paulistas e nacionais, como você vê as críticas ao seu jogo entre os torcedores quando você foi convocado para a Seleção? Acha estas críticas justas?

Críticas são normais, tanto positivas como negativas. Mas às vezes não sei se pegam no meu pé porque jogo aqui no Brasil, conquistei alguns títulos, muitas torcidas não tem muito contato comigo ou não me conhecem e ficam me cornetando. Não acho essas críticas justas, sou um cara que trabalhei bastante e nada que consegui na vida foi de graça, foi sempre com trabalho e suor. No começo, eu ficava muito chateado, mas agora já estou mais experiente e sei como lidar com isso, e não influi no meu jogo.

Raphael de Almeida São Pedro, Senhor do Bonfim-BA: Quais seriam os seus dois armadores pra Seleção atual? Por quê?

Huertas e Valtinho. Huertas é um jogador muito versátil e Valtinho é um cara que sempre vi jogar e para mim é um dos melhores armadores que temos aqui no Brasil.

Ícaro Carvalho - Contagem MG: Qual a expectativa de evolução que você tem em seu basquete? Você acha que pode dar muito à Seleção ainda?

Acho que sim, estou treinando bastante e me dedicando cada vez mais, pois em cada etapa que passa o jogo fica mais difícil e você tem que buscar mais seu espaço. E quanto mais você quiser crescer, mais você precisa de jogos internacionais para jogar no Brasil, Europa ou NBA. Você precisa atuar contra essas seleções, jogando na sua equipe e Seleção. Tive um erro na minha carreira na Seleção, mas estou me dedicando cada vez mais e sou um cara que quando quero, consigo as coisas, então tenho que treinar bastante para poder voltar.

Bruno H.Pollice - Sorocaba/SP: Para você qual é o melhor jogador atuando no Brasil? Quem você acha o melhor jogador da NBA? E em que você se inspira pra jogar, quem é seu grande ídolo?

Não tenho um grande ídolo, mas o jogo do Kobe (Bryant) me enche os olhos. No Brasil, acho o Marcelinho Machado. Gosto muito de ver o Jason Kidd (Dallas Mavericks), que vi em Las Vegas. É um cara que nunca tinha visto jogar (ao vivo) e quando eu chegar nos pés dele, já vou ficar muito feliz. O que ele faz na quadra é brincadeira, saindo do jogo dando dois ou três arremessos, pegava oito rebotes, dava 12 assistências e nenhuma bola perdida. Quando ele saía o time já dava uma caída.

Lucas-Franca/SP: Aqui no Brasil, a maioria das torcidas que você joga contra não gostam nem um pouco de você, o que acha disso e qual a pior torcida que você já jogou contra?

Acho que não gostam de mim pela minha maneira de ser autêntico, de vestir a camisa da equipe que estou, não apenas jogar por jogar, gosto de vibrar, chamar meus companheiros e não gosto de perder. Para a torcida adversária, fica meio complicado vendo um cara do outro lado querendo ganhar, isso deixa a torcida irritada.  As piores torcidas são de Franca e Bauru. Bauru agora já está um pouco mais parada, mas Franca é uma torcida muito presente. Mas mesmo assim quando eu estou lá, eu chego e a torcida começa a gritar contra e o lugar onde mais gosto de jogar é lá. Um campo mais hostil é melhor de jogar do que em um lugar vazio.

Leandro Areco-Dourados/MS: Na sua opinião, qual seria a melhor postura de jogo para a Seleção: Defesa, cadência e jogadas para os pivôs ou finalização rápida das jogadas utilizando os chutes de longa distância?

Está mais que comprovado que é a primeira opção: defesa, cadência e jogada com pivôs. Fazendo jogadas com os pivôs, as bolas de 3 ficam mais fáceis. Na hora do jogo, a gente sabe que mudar o basquete brasileiro é bastante difícil, esse é o ideal e temos que conseguir padrão de jogo, que é difícil. A Argentina levou 20 anos, mas hoje eles têm um padrão que você vê jogando no infanto, cadete e tudo na mesma pegada. Para chegar nesse nível, o Brasil vai ter que treinar bastante e se Deus quiser vamos chegar lá no ponto mais alto possível, na maneira ideal de se jogar e chegar nas melhores colocações, porque se jogar de outra maneira, acho que vamos continuar perdendo de pouco e nunca vamos chegar a lugar nenhum.

BASKETBRASIL: Qual a sua opinião sobre o trabalho do espanhol Moncho Monsalve?

Não posso nem opinar sobre o trabalho do Moncho, pois estou de fora. Não tenho uma opinião concreta e conclusiva. Cheguei a ver jogos pela TV, mas o bom de se ver é o dia-a-dia, um cara comprometido, treinando o jogador. O jogo é um mero detalhe, para mim você ganha jogos no treinamento, fazendo com que os jogadores se dediquem 101% aos treinamentos tanto de manhã quanto de tarde.

Diego - São Caetano do Sul/SP: Você acha que Barbosa, Varejão e Nenê estão realmente machucados ou apenas estão fugindo da Seleção?

Eu tenho que acreditar no que ouvi. Eu conversei com Leandrinho, já com Anderson e com Nenê eu não tive oportunidade, então tenho que acreditar neles. Temos que entender o lado do jogador, no qual um clube paga milhões para um cara e aí ele está meio machucado, ele não pode perder quase a temporada toda, como foi o caso do Varejão, temos que ver os dois lados. Também fiquei triste porque perdemos grandes jogadores, mas o pessoal que foi está animado.

Linelson Y Castro Está no BasketBrasil desde 2007 e escreve sobre basquete internacional e NCAA.
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