Jatyr, bicampeão mundial e bi-medalhista olímpico, dá entrevista exclusiva ao BasketBrasil

Publicado em: Basquete masculino, DESTAQUES, Destaque da Semana, Entrevistas, Nacional, Seleções brasileiras
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25/08/2008 | 15:30

Publicado por João Guilherme

Um dos maiores craques que já vestiu a camisa da Seleção Brasileira masculina de basquete, Jatyr Eduardo Schall, ou simplesmente Jatyr, foi bicampeão mundial em 1959 e 63 e duas vezes medalhista olímpico defendendo o Brasil. Em entrevista exclusiva ao BasketBrasil, o ídolo, hoje em ação na categoria Master, fala da carreira, da situação atual do basquete e do esporte brasileiro e lembra com orgulho: jamais perdeu para a Argentina, atual pedra no sapato da nossa Seleção.

Nestas Olimpíadas os fãs do basquetebol se deleitaram com os shows dos Estados Unidos, Espanha, Argentina, Lituânia, Grécia, Austrália entre outros, tanto no torneio masculino quanto no torneio feminino, mas ficaram tristes em não ver o Brasil sendo representado a altura. As meninas bem que se esforçaram, mas pouco conseguiram fazer, já os homens sequer conseguiram a classificação.

Nesta última sexta-feira, 22, um dos maiores ídolos do basquetebol brasileiro, Jatyr Eduardo Schall, deu uma entrevista exclusiva ao BasketBrasil. Com muita simpatia, o bicampeão mundial com a seleção brasileira (1959 e 1963) e bi-medalhista olímpico (Roma-60 e Tóquio-64) contou sua trajetória no basquete, deu sua opinião sobre a situação atual do Brasil não só no basquete, mas do esporte em geral, e ainda revelou um segredo: nunca perdeu para a Argentina em nove anos de seleção brasileira. Confira na íntegra a entrevista.

1- O que te levou a jogar basquete? Como essa paixão foi despertada?
Bom, quando eu era garoto eu procurei fazer todos os esportes, jogava futebol, fazia pentatlo, jogava futebol de praia, polo aquático. Eu comecei dando preferência para o polo aquático, pois meu pai era campeão sul-americano da modalidade, então isso me fez querer nadar, jogar  polo aquático, mas teve um dia que eu quebrei o nariz numa partida de polo aquático, meu nariz sangrou muito e eu fiquei um pouco assustado com aquilo. A partir dali eu não quis mais jogar polo aquático, achava que era um esporte um pouco violento, mas eu sempre fui apaixonado por esportes e tinha um porte físico avantajado para um garoto daquela época. Quando eu tinha 15 pra 16 anos eu comecei a jogar basquete no Pinheiros e acabei gostando do jogo, tinha uma boa impulsão e me dei bem no basquete, com as regras e tudo o mais. Foi aí que eu comecei a tomar gosto pela coisa.

2- Conte um pouco a sua trajetória.
Eu não cheguei a atuar em nenhuma categoria de base no basquete, além do juvenil. Eu fiquei um ano no juvenil do Pinheiros e aí no segundo ano eu fui chamado para jogar no time principal do Pinheiros, que era o atual campeão paulista na categoria adulto, eu tinha 17 anos nesta época. Atuei um ano no time principal do Pinheiros, mas o clube decidiu desmanchar a equipe. Aí eu fui para o Palmeiras, foi uma época boa lá, joguei nove anos e nós conquistamos todos os títulos possíveis na época. Eu comecei no basquete justamente na época em que as regras estavam sendo mudadas, o basquete, até então, era monótono, pois o jogador podia bater bola o tempo que quisesse, mas com as mudanças o basquete se tornou mais dinâmico e atraiu mais o público. O Brasil foi um dos países que melhor respondeu a essa mudança e, a partir daí, surgiu aquela geração maravilhosa, nós ganhamos dois mundiais, conseguimos dois bronzes olímpicos, ganhamos seis sul-americanos e um pan-americano. A mudança da regra foi fundamental para a evolução do basquete no mundo e no Brasil.

Foto da seleção brasileira bicampeã mundial em 1963.

3- E hoje, o senhor ainda joga?
Eu ainda jogo. Tenho jogado no campeonato de Master pelo Pinheiros, nós atuamos em torneios pelo Brasil e até fora do país. Eu até estou aproveitando para conhecer alguns lugares que não tive oportunidade de conhecer quando era jogador. Aquela época era muito difícil de viajar, a aviação não era moderna como hoje, então tenho aproveitado para conhecer outros países pela seleção de Masters. Disputei campeonatos na Eslovênia, no Uruguai, teve um em Porto Rico que não pude ir, estava com uma lesão no ombro. Sempre que possível eu tento ir e jogar.

4- Como o senhor avalia a situação atual do basquetebol brasileiro? O que fez a modalidade chegar ao fundo do poço?
Eu acredito que alguns fatores foram fundamentais para que a situação chegasse a este ponto. Um dos principais foi a profissionalização, mas não a profissionalização em si, mas a forma como ela foi implantada aqui no Brasil. Os times viraram empresas, ou seja, não têm identidade, os clubes não comandam mais como antigamente. As pessoas que comandam estão mais preocupadas com a imagem e não com o esporte. Eu não culpo ninguém por isso, porque se isso acontecesse na nossa época nós provavelmente teríamos feito a mesma coisa, mas o ruim da profissionalização é que falta amor aos jogadores, não se tem mais aquele identidade jogador-clube, nem clube com a cidade. Alguns clubes defendem uma cidade em um campeonato e logo após migram para outra e disputam outro torneio por um município diferente. A grande diferença em relação a nossa época é que nós éramos amadores, então cada um tinha seu trabalho, cada um cuidava de sua vida, mas nós amávamos jogar basquete, amávamos defender a seleção brasileira. Não tinha essa de: “ah… estou machucado”. A seleção era o mais importante, nós chegamos a perder anos de estudo para defender a seleção.

Com a bola laranja, Jatyr garantiu dois títulos mundiais e duas medalhas olímpicas para o Brasil.

Eu acredito que esta é a principal diferença, não há mais amor do jogador com o clube, a seleção e nem identidade do clube com a cidade. Eu acredito que não é só no basquete que o país precisa melhorar, mas em outros esportes, é só nós vermos a situação do Brasil nas Olimpíadas, falta um pouco de apego do brasileiro às coisas, falta um pouco de “espírito olímpico”, uma paixão por defender a nação, coisa que em outros países você vê. Isto é uma coisa que vem de berço, da educação. Você me pergunta: “Por que o basquete brasileiro chegou a esta situação?” e eu te pergunto: “Por que o Brasil está nesta situação?”

5- Qual o sentimento do senhor ao ver o basquetebol perder tanto espaço no Brasil?
É triste ver o basquete nesta situação, mas a modalidade teve sua grande chance de se expandir na década de 80. O Luciano do Valle queria impulsionar o basquete, assim como ele fez com o vôlei. Ele procurou a turma do basquete para divulgar a modalidade para o grande público, mas a Confederação de Basquete não quis aceitar os moldes propostos pelo Luciano, coisa que a Confederação de Vôlei não fez questão de seguir. O vôlei estava abaixo do basquete na época e hoje você vê, o projeto do Luciano funcionou muito bem, ele soube trabalhar perfeitamente com isso e o vôlei virou o segundo esporte no Brasil, hoje é exemplo de profissionalização e consegue resultados maravilhosos. Se o basquete tivesse aproveitado a oportunidade poderia estar na mesma situação do vôlei, quem sabe até melhor. Na época eu fiquei sabendo dessa rejeição da Confederação, não vou dizer que já sabia que isso iria acontecer, mas fiquei meio contrariado.

6- O que fazer para melhorar esta situação? É preciso mudar o comando, a mentalidade, renovação…?
Acho que tudo isso é uma questão de base, tudo começa lá, além de você aprender a jogar e evoluir seu jogo conforme o tempo é nas categorias de base que você amadurece emocionalmente também, não só fisicamentalmente. Nós vimos estes jogadores que não quiseram defender a seleção brasileira, eles dizem que a estrutura não é boa, que não tem o seguro e eles têm até razão neste ponto, mas o que falta para eles é amor. Por que os jogadores argentinos da NBA estão lá disputando a Olimpíada? Porque eles têm amor. O basquetebol poderá melhorar um pouco quando os jogadores tiverem mais amor, é nisso que eles (jogadores) precisam melhorar. Particularmente, eu gosto de técnicos estrangeiros porque eles têm uma mentalidade diferente e isso ajuda. O Moncho pegou um trabalho na fogueira, mas ele não fez um trabalho ruim, fez o que dava pra fazer. Após a derrota para a Alemanha ele deu uma declaração interessante, disse que o basquetebol do Brasil precisa se desgrudar das glórias do passado e pensar mais no hoje. Atualmente, a seleção brasileira é uma equipe que foi eliminada duas vezes do Pré-Olímpico, esta é a realidade. Agora, nós temos quatro anos para renovar esta mentalidade e começar este trabalho com a base.

7- O senhor, Wlamir (Marques) ou algum outro ídolo do basquetebol já chegou a cogitar a possibilidade de se candidatar a presidência da CBB para tentar mudar esta situação?
Há pouco tempo atrás o Oscar, a Hortência e a Paula tentaram criar a Nossa Liga, mas eles também foram os únicos que tentaram fazer alguma coisa. O Wlamir, o Amauri (Passos) são porta-vozes nossos, mas eu e os jogadores da minha geração não tomamos atitudes, vamos dizer assim, porque nós nunca vivemos em função do basquete. Na nossa época era tudo amador, então cada um foi cuidar da sua vida após encerrar a carreira. Já os jogadores mais novos, que pegaram a época da profissionalização, sentem mais e por isso se “mexem” mais que nós. Nós também não somos procurados pelos dirigentes, eles acham que opinião já tem demais, nós, se fomos procurados, ajudaríamos o basquete com muito prazer.

Victor, Sucar, Menon, Amaury, Jatyr, Edson Bispo e Pecente, alguns dos ídolos do basquetebol brasileiro.

8- O senhor acompanha o basquete em geral (NBA, Euroliga e Nacional)?
Acompanhar eu não acompanho não. De vez em quando eu assisto algum jogo, às vezes eu vejo as melhores jogadas da rodada, vejo lances muito bonitos e plásticos na NBA. Eu não gosto de acompanhar muito a NBA porque aquilo é um show, então eles param o jogo várias vezes, fazem intervalos comerciais e isto me cansa um pouco, me tira o foco do jogo. Agora, Nacional eu tenho pena de ver, não porque o jogo é ruim, mas hoje têm alguns times desconhecidos e sem tradição. Às vezes eu vejo um jogo de Franca, Limeira, mas eu quase não acompanho.

9- Sem contar o basquete, o que o senhor faz atualmente?
Eu sou sócio de uma empresa que administra frotas (Control Fleet) de veículo de clientes de todo o Brasil. Nós adminsitramos cerca de 3000 carros de clientes e temos uma frota de aproximadamente 150 veículos para a locação, embora isto não seja o forte da empresa. Atualmente, eu estou fazendo isso.

10- Jatyr, por favor, deixe uma mensagem para as pessoas que pretendem praticar basquete (ou algum outro esporte)
Não importa se a pessoa quer fazer basquete ou não, o que importa é que as pessoas pratiquem esporte, que os jovens pratiquem esporte, pois ele é importantíssimo não só para a saúde, mas para a formação do caráter e da ética de uma pessoa. O esporte é fundamental para a vida, o importante é praticar esporte, mesmo que seja por lazer. Agora, para aqueles que querem seguir uma carreira, eu digo: “Treinem, se dediquem bastante que o resultado irá valer a pena”.

(Fotos capa: CBB, João Guilherme e arquivo/Ag. O Globo; Fotos matéria: arquivo/Ag. O Globo e Denise Adams/Época)

João Guilherme Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete nacional e internacional.
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