Splitter é campeão espanhol e deve liderar Seleção “eurobrazuca” em Atenas

Publicado em: Nacional, Seleções brasileiras
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3/06/2008 | 19:35

Publicado por Paulo Roberto

O pivô do TAU Cerámica Tiago Splitter acaba de conquistar o título mais expressivo para um jogador brasileiro nesta temporada, o de campeão da Liga Espanhola ACB, o segundo campeonato nacional mais rico do mundo depois da NBA. A vitória do time basco em casa sobre o Barcelona por 76 a 61 nesta terça-feira fechou as finais em 3 a 0 e consagrou a melhor temporada do catarinense na Europa. A se confirmar a ausência do ala-armador do Phoenix Suns Leandrinho Barbosa por causa de uma lesão no joelho direito, Tiago se torna a maior esperança de uma Seleção Brasileira que se configura “toda européia” para a disputa do Torneio Pré-Olímpico de Atenas (GRE) entre 14 e 20 de julho. O provável corte do principal jogador da Seleção deve fazer com que o quinteto titular do Brasil seja formado pela primeira vez apenas por atletas com experiência de Euroliga: o armador eleito o melhor de sua posição na ACB Marcelinho Huertas (Bilbao Basket), o ala-armador Alex Garcia (vice-campeão europeu com o Maccabi Tel-Aviv, de Israel), na lateral Guilherme Giovannoni (Virtus Bologna/ITA) ou Marcelinho Machado (hoje no Flamengo após um longo período defendendo times da Lituânia, da Itália e da Segunda Divisão Espanhola), o ala-pivô Anderson Varejão (que foi campeão europeu e espanhol pelo Barça antes de chegar ao Cleveland Cavaliers) e Splitter, já que o pivô do Denver Nenê ainda não se pronunciou oficialmente sobre sua disponibilidade ou não para a Seleção após sofrer uma cirurgia para remoção de um câncer testicular em janeiro e não estaria em boas condições para jogar muitos minutos na Grécia, isso se for liberado pelo Nuggets.

Quando soube do problema envolvendo Leandrinho, cestinha da equipe nas duas temporadas passadas e artilheiro geral do Torneio Pré-Olímpico das Américas de 2007 em Las Vegas, o técnico espanhol Moncho Monsalve não fez objeções à viagem do ala-armador para os Estados Unidos no dia 12 para fazer exames que apontarão a necessidade ou não de uma cirurgia, mas falou grosso antecipando que quem não estivesse presente no início dos treinamentos na próxima semana não iria continuar trabalhando com ele. O time-base com o qual Moncho deve iniciar a preparação tem uma vantagem de possuir um bom conhecimento do estilo de jogo mais europeu que o treinador pretende trazer para a Seleção, mas a perda da velocidade e do talento individual de Leandro, o melhor infiltrador da equipe para abrir as defesas adversárias, certamente fará muita falta no ataque. O raçudo Alex pode tentar compensar isso com sua maior qualidade defensiva e espírito de jogo mais coletivo, porém resta saber como Monsalve vai lidar com o ímpeto chutador louco do cestinha flamenguista Marcelinho, e ver se Guilherme estará bem fisicamente para pleitear uma vaga de titular na Seleção, pois vem de um longo período parado sem jogar desde março. Para não sofrer outra baixa no garrafão, a CBB ainda tem que garantir junto ao Cleveland a liberação de Varejão mediante o pagamento do seguro contra lesões, sendo que depois da eliminação do Cavs no Jogo 7 das semifinais da Conferência Leste contra o Boston Celtics ele ficou em Ohio para o tratamento de uma contusão no joelho direito sofrida na terceira partida da série. Murilo (Maccabi) e J.P. Batista (Barons Riga da Letônia), os potenciais substitutos para o capixaba, também jogam na Europa.

Se não puder contar com seu trio de representantes da NBA, a Seleção Brasileira pode se mirar no exemplo da Eslovênia, uma das fortes concorrentes a uma das três vagas olímpicas em jogo em Atenas. Mesmo sem contar com quatro dos cinco jogadores do país que atuam na liga americana, a equipe do leste europeu capitaneada pelo pivô do Toronto Raptors Rasho Nesterovic e pelo ala-armador do Barcelona Jaka Lakovic é favorita à primeira posição no Grupo C do Pré-Olímpico que tem ainda Canadá e Coréia do Sul, cruzando nas quartas-de-final com os dois primeiros colocados da chave D formada por Croácia, Porto Rico e Camarões. Na lista de 14 convocados pelo técnico Ales Pipan não estão o ala-armador finalista da NBA pelo Los Angeles Lakers Sasha Vujacic, o ala do New Jersey Nets Bostjan Nachbar, o armador do Sacramento Kings Beno Udrih nem o pivô também do Toronto Primoz Brezec, mas vale lembrar que foi com uma equipe formada por atletas que jogam na Euroliga que a Eslovênia terminou em sétimo lugar no Campeonato Europeu de seleções no ano passado e garantiu a oportunidade de tentar a classificação em Atenas, enquanto isso ficaram fora da Olimpíada desde 2007 “cachorros grandes” do Velho Continente como a França do astro Tony Parker, a Itália e a Sérvia. Isso sem falar no exemplo da Grécia que é vice-campeã do mundo e deu uma aula de basquete derrotando a seleção norte-americana com seus astros da NBA na semifinal do Mundial do Japão em 2006, o esquadrão helênico continua não tenho nenhum representante militando no basquete profissional dos EUA. A Croácia é outra que não fica dependendo do reserva do Suns Gordan Giricek. Logo depois da convocação em que só conseguiu arregimentar Nesterovic, o técnico Pipan disse estar otimista, seu principal lamento foi a ausência do pivô do Lottomatica Roma italiano Erazem Lorbek.

“Erazem está cansado, sua temporada na Itália nem terminou e ele já está com problemas nas costas. No final da temporada acaba o contrato dele em Roma e ele pode até deixar o clube. Ele disse que talvez poderá ir para os EUA durante o verão para jogar pelo Indiana Pacers na liga de verão da NBA, e quem sabe garantir um contrato lá. O critério para participar da seleção é simples: os jogadores que se apresentaram melhor na temporada passada e que estão prontos para dar tudo de si para a Eslovênia neste momento estão aqui conosco agora. A espinha dorsal do time é a mesma que tivemos na Espanha (no Europeu-2007, sem a maioria de seus atletas “americanizados”), iremos dar o melhor de nós e tomara que isso seja o suficiente. Nosso objetivo é terminar entre os três melhores times e garantir a classificação para a Olimpíada de Pequim. Brezec disse que não iria jogar antes mesmo de eu ter decidir a lista dos convocados, Beno Udrih e Nachbar gostariam de jogar, mas olhando as circunstâncias, isso não foi realmente possível. Os dois são agentes livres e só podem assinar contratos na NBA depois de 1º de julho, então estão preocupados em sofrer uma lesão nesse intervalo, o que causaria grandes problemas para eles. Porque estão sem contrato, nós também não podemos pagar os seguros deles (foi o mesmo problema que impossibilitou Varejão de jogar pelo Brasil no ano passado). Mas somos um time forte com o que temos, já mostramos um bom potencial nas últimas competições e confio em nossas chances”, afirmou Pipan, cujo time pode até ser adversário dos brasileiros numa das semifinais valendo vaga direta para Pequim ou na decisão do terceiro lugar que definirá o último classificado para os Jogos Olímpicos da China.

“Nós faremos tudo para chegar à Olimpíada. Se jogarmos bem como fizemos em algumas partidas do Campeonato Europeu, nós iremos a Pequim. Nossa missão agora é treinar o mais forte possível para estarmos o mais bem preparados possível no Pré-Olímpico de Atenas”, disse o armador Goran Dragic, um dos destaques da Eslovênia na Eurobasket.

A verdade para a Seleção verde-amarela é que não ter o trio de brazucas da NBA seria um desfalque importante, mas não é o fim do mundo. Levar Leandrinho, Varejão e Nenê em um estado físico meia-boca para a Grécia não iria adiantar muita coisa, o fiasco poderia ser maior que a derrota para a seleção-B da Argentina reforçada só por Luis Scola na semifinal em Las Vegas, aquela sim foi a grande chance desperdiçada de recolocar o basquete masculino brasileiro nas Olimpíadas pela primeira vez desde a chorosa despedida de Oscar Schmidt nos Jogos de Atlanta-1996. Mas com um grupo bem formado pelos “eurobrazucas” mais os destaques do Campeonato Nacional, se houver um compromisso sério de todos com a preparação para o Pré-Olímpico e união em torno do objetivo maior de salvar o ânimo da modalidade, pelo talento dos atletas convocados a vaga é possível, embora o Brasil seja agora um azarão no duelo da primeira fase contra a anfitriã Grécia, uma classificação em segundo lugar na chave com uma vitória sobre o Líbano e uma derrota diante dos donos da casa provavelmente representaria um cruzamento com a Alemanha do astro do Dallas Mavericks Dirk Nowitzki na fase de quartas-de-final, na qual quem perder volta para casa e diz adeus ao sonho olímpico. Passando em primeiro lugar no grupo que tem ainda Nova Zelândia e Cabo Verde, a seleção alemã seria favorita em um confronto com o Brasil, mas uma soma harmoniosa dos talentos brasileiros pode muito bem surpreender os “tanques panzers de uma estrela só” (embora os coadjuvantes de Dirk tenham melhorado, é preciso reconhecer). Nowitzki é um dos melhores do mundo, tem um talento diferenciado, mas a Seleção Brasileira mesmo se não tiver ninguém da NBA tem capacidade de fazer jogo duro com Alemanha, Croácia ou Eslovênia, é mais time que Porto Rico, Canadá e Nova Zelândia, só precisa saber se impor, apenas a Grécia com a vantagem de jogar em casa está em um degrau acima dos demais concorrentes, Cabo Verde, Camarões, Coréia do Sul e Líbano dificilmente passarão da primeira fase.

Segundo a programação divulgada pela CBB os treinos começam no dia 10 no Maracanãzinho, seria mais de um mês para a equipe assimilar o estilo de jogo do espanhol Moncho e criar um repertório de jogadas mais organizado e eficiente do que aquele “conjunto de individualidades” visto em Las Vegas, a questão é de identidade e padrão tático, de união dos jogadores sem os rachas internos que ficaram evidentes nas últimas campanhas, isso sem falar em garra, amor à camisa, atitude vencedora, quem tem de amarelar é o Nowitzki como faz nos playoffs pelo Dallas. Taxados como indisciplinados após cometerem atos de insubordinação no classificatório das Américas, o ala Marquinhos e o armador Nezinho foram barrados na convocação, já é um começo. Com Leandrinho machucado, o ala-armador do Flamengo Duda Machado, elogiado por Monsalve em entrevistas anteriores, tem uma grande probabilidade de ser promovido do grupo convocado por Paulo Sampaio para o Sul-Americano para treinar com a Seleção principal. O irmão de Marcelinho realmente fez uma bela temporada pelo Rubro-Negro carioca no Nacional e na Liga Sul-Americano, merece ser testado.

É claro que os torcedores locais poderiam querer ver uma ou outra peça jogando na Seleção (ou fora dela, o pivô Rafael “Baby” Araújo e o “crazy shooter” Marcelinho ainda são muito criticados), mas a lista dos 14 convocados pelo espanhol inclui em sua maioria os melhores jogadores do país com rodagem internacional na atual geração, não é mesmo hora de experiências com novatos (o Sul-Americano do Chile é o local certo para isso com a equipe convocada pelo competente Paulo Chupeta). Pode haver outros bons nomes que ficaram fora e poderiam ser testados, mas não numa competição de vida ou morte para o basquete nacional, outros veteranos já tiveram sua chance na Seleção e não aproveitaram, o que se pode exigir da comissão técnica de Moncho é fazer um bom trabalho de preparação com o que ele tiver de melhor. É verdade que a crise na administração da modalidade por parte da CBB é grave, que a gestão de Gerasime “Grego” Bozikis à frente da entidade é ruim e cometeu muitos erros, que o Nacional perdeu força com os rachas que deram origem à Nossa Liga de Basquete e depois à Supercopa só com clubes paulistas, que o trabalho de formação de jovens talentos não encontra apoio, mas na hora H da verdade das quatro linhas, os “Gregos” que vão atuar contra o Brasil são Papaloukas, Papadopoulos, Spanoulis, dentro da quadra não haverá nenhum Bozikis para fazer cestas, pegar rebotes ou dar assistências, ninguém vai resolver o problema se a própria Seleção não se ajudar. E podem ter certeza que se a classificação olímpica vier, a maioria da mídia realmente especializada saberá dar os devidos méritos a quem de direito, enaltecerá os atletas que se destacarem, reconhecerá os acertos e apontará erros no trabalho de Monsalve querendo ver uma melhora para o prato principal em agosto. Os dirigentes podem até querer tentar dar uma de salvadores, mas quem iria engolir uma dessas? Só os ingênuos de ocasião, algum aéreo que acompanhe o basquete no pouco espaço reservado para ele na grande imprensa.

Agora não adianta mais ficar reclamando que o técnico era para ser brasileiro, ou ianque, ou  argentino, um bode expiatório pode ter qualquer nacionalidade se o grupo não estiver unido, bem organizado taticamente e dando o sangue em quadra. Leandrinho e Nenê sugeriram seus técnicos na NBA George Karl ou Phil Weber para a Seleção, mas o fato é que contratar o treinador do Denver Nuggets ou o assistente-técnico do Phoenix Suns não é financeiramente uma moleza, e será que surtiria o efeito desejado? O estilo de jogo da NBA é bem diferente do basquete praticado nas competições internacionais e isso ficou claro nos últimos fracassos da seleção americana, que começaram pelo vexatório sexto lugar no Mundial de Indianápolis-2002 sob o comando de quem? George Karl, o “veterano” treinador que não consegue fazer o Denver passar da primeira rodada dos playoffs mesmo com a dupla de astros Carmelo Anthony/Allen Iverson, GK é alvo de muitas críticas da torcida do Colorado por causa dos lapsos defensivos do Nuggets, acaba de sofrer uma cirurgia no quadril, seria ele o salvador da pátria? Ou Phil Weber, que não está listado nem entre os candidatos ao cargo de treinador principal do Phoenix?

É claro que se deve enaltecer o profissionalismo da NBA, os lances bonitos, alguns métodos de treinamento que buscam o máximo aprimoramento físico dos atletas, mas copiar pura e simplesmente o modelo americano de jogo não parece ser a saída mais adequada ou barata considerando as características dos atletas da Seleção Brasileira, Lula Ferreira propôs-se a fazer isso e deu com os burros n´água. Vamos ver se uma personalidade européia se encaixa melhor, já é hora de o Brasil aprender a defender direito coletivamente, saber cadenciar o ataque com inteligência quando for necessário, chutar bolas de três com responsabilidade, daí a velocidade e a busca pelos contra-ataques é algo natural no estilo brasileiro. Pode-se acionar mais os pivôs sim, mesmo sem ter um típico 5 trombador como Nenê ou Baby, Tiago Splitter e Varejão no momento são os homens mais inteiros para o garrafão mesmo sendo alas-pivôs de origem, o importante para o jogo moderno é uma equipe competitiva ter variações táticas, criar sua própria identidade.

Apesar de ter soado muito antipático ao tratar do problema da lesão de Leandrinho em entrevista à TV Globo, falando em cortar um jogador-símbolo da Seleção sem ao menos conversar pessoalmente com ele, Moncho Monsalve merece ganhar um voto de confiança, “xenofobia” e vaidades de qualquer parte agora não adiantam nada, poderia ser um treinador mais tarimbado internacionalmente, mas vamos esperar para ver se algo novo aparece no horizonte. Se fora da quadra o nosso basquete está afundando com o Grego, dentro da quadra não tem por que os bons jogadores “eurobrazucas” não darem o máximo para começar a escrever uma história diferente na Grécia. Embora a FIBA ainda possa fazer justiça aumentando o número de participantes no torneio olímpico masculino para 16 equipes nos Jogos de Londres-2012, considerando a grande evolução do basquete internacional e a alta competitividade entre os países com diversas seleções de qualidade (principalmente européias) ficando fora da festa olímpica, uma eventual ausência dos brasileiros pela terceira Olimpíada seguida seria um golpe cruel no coração de qualquer torcedor fiel que ainda tem esperança no nosso basquete e uma pancada fatal para quem tenta sobreviver da modalidade no país.

Paulo Roberto Fundou o BasketBrasil em 2004 e escreve sobre basquete em geral.
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