Publicado por Paulo Roberto
Nesta quarta-feira em que o Brasil recebeu a boa notícia de que a candidatura do Rio de Janeiro sobreviveu ao corte do Comitê Olímpico Internacional e a “Cidade Maravilhosa” é uma das finalistas na disputa para ser sede das Olimpíadas de 2016, concorrendo com três grandes cidades candidatas do primeiro mundo (Madri na Espanha, Chicago nos Estados Unidos e Tóquio no Japão), a Seleção Brasileira masculina de basquete recebeu mais uma péssima notícia: o ala-pivô capixaba do Cleveland Cavaliers Anderson Varejão está machucado e pediu dispensa do Torneio Pré-Olímpico de Atenas em julho, juntando-se no estaleiro ao ala-armador do Phoenix Suns Leandrinho, que com uma lesão no joelho direito voltará aos EUA para novos exames no dia 12 que apontarão a necessidade ou não de ser operado, mas já disse que não vai poder defender o país na Grécia. O pivô do Denver Nuggets Nenê é outro que pode desfalcar o time nacional, após sofrer uma cirurgia para extração de um tumor cancerígeno nos testículos em janeiro e ter jogado poucas partidas desde então, ele ainda não se pronunciou oficialmente sobre a convocação, mas mesmo se comparecer dificilmente terá condições físicas de atuar muitos minutos. Por isso agiganta-se a importância do pivô Tiago Splitter, campeão espanhol ontem pelo TAU Cerámica, na luta por uma vaga na Olimpíada de Pequim em agosto. Confira a entrevista que ele deu ao jornal Marca.
Hoje foi dia de festa para o catarinense receber seu relógio de campeão da ACB na sala vip da Fernando Buesa Arena e desfilar em carro aberto pelas ruas de Vitoria (ESP) numa comemoração que atraiu milhares de pessoas à Praça da Virgem Branca (veja imagens da festa popular no vídeo disponibilizado pelo jornal Marca). Mas domingo é dia de chegar ao Rio de Janeiro para a apresentação da Seleção Brasileira visando o início da preparação para o Pré-Olímpico com treinos no Maracanãzinho na próxima semana. Agora Splitter se tornou a peça fundamental do garrafão da equipe do técnico espanhol Moncho Monsalve, sua presença será crucial para duelar com adversários poderosos como a vice-campeã mundial Grécia e possivelmente a Alemanha do astro do Dallas Mavericks Dirk Nowitzki em uma eventual partida de quartas-de-final em Atenas, fase em que quem perder dará adeus ao sonho olímpico. Mas se sofrer mais desfalques até a estréia, a torcida brasileira já deve ter medo até do duelo com o azarão Líbano na primeira fase.
Na ausência de Varejão, cresce também a importância de Murilo (Maccabi Tel Aviv, de Israel), J.P. Batista (Barons Riga, da Letônia) e Rafael “Baby” Araújo (Spartak Saint Petersburgo, da Rússia), três reservas que provavelmente agora concorrerão por uma vaga no quinteto titular caso Nenê não se apresente por vontade própria ou não seja liberado pela franquia do Colorado (EUA), Murilo é a opção mais confiável. Conforme comentamos em matéria publicada ontem, o time-base de Monsalve provavelmente vai contar somente com jogadores com experiência européia: Marcelinho Huertas (eleito o melhor armador da Liga ACB pelo Bilbao Basket, vivendo um momento mais prestigiado do que o experiente Valtinho, vice-campeão nacional pelo Brasília/Universo), Marcelinho Machado (passagens por Itália, Espanha e Lituânia antes de defender o campeão brasileiro Flamengo), Guilherme Giovannoni (Virtus Bologna, da Itália), Alex Garcia (Maccabi Tel Aviv), Splitter e algum dos pivôs que atuaram nesta temporada no Leste europeu, o jovem Paulão corre por fora.
O futuro de Splitter é realmente promissor, o San Antonio Spurs está morrendo de vontade de contratá-lo (embora ele já tenha recebido uma oferta financeiramente muito melhor para renovar contrato com o TAU Cerámica até 2010), e aos 23 anos de idade ele ainda teria dois ciclos olímpicos inteiros com lenha para queimar, quem sabe até as Olimpíadas de 2016 que o Brasil sonha trazer para o Rio de Janeiro, incluído nesta quarta-feira entre as quatro finalistas da disputa à sede dos Jogos anunciadas pelo Comitê Olímpico Internacional na cerimônia em Atenas. O anúncio da cidade-sede será feito pelo COI em outubro de 2009 em Copenhague, na Dinamarca, hoje foram eliminadas da disputa as candidaturas de Praga (República Tcheca), Doha (Catar) e Baku (Azerbaijão). Nessa maré de crise que vive a Seleção, deixemos de lado as más línguas que já devem estar dizendo ser mais fácil a capital fluminense derrotar as três metrópoles do Hemisfério Norte e virar sede olímpica garantindo a classificação do nosso basquete masculino à Olimpíada daqui a oito anos sem precisar jogar, do que garantir a vaga dentro de quadra superando essa gestão desastrosa do presidente da CBB Gerasime “Grego” Bozikis. Mas vamos dar um voto de confiança aos jogadores e a Moncho Monsalve para tentarmos dar a volta por cima em Atenas.
Até 2016 a Federação Internacional de Basquete já deve ter elevado o número de seleções participantes para 16 no torneio masculino, mas depois de duas ausências consecutivas do Brasil nos Jogos de Sydney-2000 e Atenas-2004, Splitter e os demais integrantes da Seleção do técnico espanhol Moncho Monsalve prometem lutar para que o retorno à grande festa do esporte mundial se concretize no torneio do mês que vem na Grécia, mas no momento os verde-amarelos realmente não estão entre os favoritos a uma das três vagas em Pequim, o time vai ter de surpreender, as seleções européias (além dos anfitriões, os alemães, a Croácia e a Eslovênia) são as maiores credenciadas na disputa pelo passaporte para a China, com as três equipes das Américas (Brasil, Porto Rico e Canadá) correndo por fora. Numa entrevista dada no final de maio para o site da CBB, Tiago se mostrava otimista e disposto a ajudar a Seleção. Leia agora a tradução da entrevista dele ao Marca sobre a conquista de um título da ACB inédito em sua carreira como uma das estrelas do time basco, a manchete da matéria que saiu na capa do site madrilenho é “Splitter: Me sinto muito baskonista e estou orgulhoso dele”.
“Quando aos 15 anos de idade aterrissou na nevada Vitoria ele não podia imaginar que oito anos depois seria a peça-chave de um Tau campeão da ACB. Tiago Splitter demonstrou na final que é o grande pivô do presente e do futuro que o Baskonia (apelido do TAU Cerámica) necessita para continuar por cima na Espanha e na Europa. Porque, acima de tudo, o brasileiro é um baskonista de pura estirpe”, introduziu o cronista Quique Peinado.
Marca: Esta conquista da liga é o melhor momento de sua carreira?
Tiago: “Sim, foi um momento inacreditável. É o que eu sempre sonhei e finalmente aconteceu”.
Marca: Além do mais, tem pouca gente com maior pedigree baskonista que você…
Tiago: “Aqui é onde eu cresci como jogador. Desde que era um garoto eu estava inserido na filosofia do clube, no dia-a-dia… me sinto muito baskonista e estou orgulhoso dele (do TAU)”.
Marca: Suponho que sair do Brasil para vir a Vitoria com 15 anos acabou valendo a pena.
Tiago: “Quando cheguei aqui eu era um menino muito caladinho, trabalhador… A única coisa que queria era treinar e jogar. No final isso me saiu muito bem”.
Marca: O primeiro jogo da final foi sua consagração definitiva como grande pivô do momento. Era contra o Barça, em um cenário como o Palau (ginásio do Barcelona)… Você se sentiu assim?
Tiago: “Sim. Foi um jogo em que eles (Barcelona) todavia não tinham preparado bem a defesa contra mim, e eu me senti muito cômodo e à vontade. Foi muito importante. (NR. Na primeira vitória fora de casa abrindo o caminho para a varrida de 3 a 0 Splitter foi o cestinha com 21 pontos)”.
Marca: No segundo confronto você não apareceu tanto, mas fez jogadas nos momentos chave…
Tiago: “São momentos de muita tensão, partidas muito difíceis. Gosto desses jogos porque se aprende muito”.
Marca: Neven Spahija (técnico croata do TAU) foi e é muito questionado, mas consta que você tem por ele um carinho especial.
Tiago: “Sim, eu tenho. Não sei se foi o melhor treinador que tive, mas seguramente foi aquele que me deu mais protagonismo. Ele me ajudou muitíssimo. É muito próximo dos jogadores, e isso às vezes é usado para criticá-lo. Creio que agora não é o momento de falar se ele vai embora ou não.”
Marca: Olhando de fora, este foi o Tau dos últimos anos que mais problemas parecia ter. Foi assim mesmo?
Tiago: “Não se pode dizer que não tivemos problemas, mas eles nos fizeram mais fortes. Com isto não quero dizer que assim é o melhor caminho para vencer, mas quando chegamos a uma final bem, mental e fisicamente, era difícil perdermos”.
Marca: Em seu caso pessoal, além disso, deve ter sido mais difícil. Sua irmã Michelle, também jogadora, luta contra uma leucemia…
Tiago: “Tem sido duro, é verdade. Eu tenho tentado ser forte e me concentrar em fazer o melhor possível, ainda que não tenha sido fácil.”
Marca: Ainda que não queira falar do futuro, está claro que todas as opções que você maneja são magníficas. Você se sente um privilegiado?
Tiago: “Quando você pode escolher entre ir para a NBA ou ficar em um time campeão, qualquer um se sente muito contente.”
Lembre aqui as declarações dadas por Splitter publicadas no site da CBB em 26/5:
APRESENTAÇÃO
“Volto ao Brasil assim que acabar a Liga Espanhola. A quinta partida da final está marcada para dia 8 (dia da apresentação no Rio de Janeiro), e já conversei diretamente com o técnico Moncho Monsalve sobre isso e não terá problemas. Depois da última partida, não interessa o dia, volto para o Brasil e me apresento à Seleção. Lógico que é cansativo, mas é a vaga olímpica que está em jogo e vale a pena o esforço.”
OBS: Com a série contra o Barcelona resolvida mais rápido do que todos esperavam com uma varrida por 3 a 0, ele pode descansar mais um pouco antes da apresentação.
EXPECTATIVA
“Estou ansioso para recomeçar os treinamentos com a seleção. Conversei com alguns colegas, como Marcelo Huertas, Marcelinho Machado, Murilo, Alex, Guilherme e todos estão entusiasmados e confiantes para o desafio do Pré-Olímpico. É importante todos estarmos comprometidos com o sucesso na competição. Afinal, é a grande oportunidade de chegar a Olimpíada. Quanto mais tempo o grupo treinar junto, maior a chance de vitória”.
OBS: Aqui Splitter já não cita nenhum dos três atletas brasileiros da NBA, como já prevendo o distanciamento deles do grupo.
SONHO OLÍMPICO
“Já conquistei muita coisa na minha carreira, mas ainda falta a participação nos Jogos Olímpicos. É o grande sonho de qualquer atleta e comigo não é diferente. A gente vê grandes astros do basquete mundial se esforçando ao máximo para isso. Como o alemão Dirk Nowitzki, que quer demais ajudar o seu país a chegar na Olimpíada. E o americano LeBron James, que não abre mão de defender os Estados Unidos em Pequim”.
CHANCES DO BRASIL
“É difícil para todo mundo, afinal são três vagas para doze seleções. Mas acredito muito no nosso grupo. Temos uma equipe de talento. E quanto mais focados estivermos no objetivo de vencer, mais chances teremos de classificar o Brasil para a Olimpíada.”
É, vai ser difícil, mas quem sabe com um mês e pouco de uma preparação bem-feita, com o time unido acima das vaidades, e se Monsalve fizer um bom trabalho de treinamento, quem sabe não pinte uma alegria para o basquete brasileiro, jogadores de talento para conseguir uma vaga a Seleção tem…
Paulo Roberto
Fundou o BasketBrasil em 2004 e escreve sobre basquete em geral.
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