Publicado por Adriano Albuquerque
Quando o Campeonato Carioca Adulto de Basquete Masculino 2008 foi anunciado, nos idos de setembro, o time do Cabo Frio/Sika provavelmente foi o que chamou menos atenção na lista de cinco participantes. Afinal, o Flamengo é o atual campeão brasileiro e tricampeão estadual, o Club Municipal é um time de tradição no basquete, o Iguaçu disputou as últimas edições do Nacional e o Villa Rio, embora também estreante, entrava com o time do Fluminense campeão estadual juvenil e aspirante neste ano. Terminados os dois turnos do campeonato, porém, é o lado cabofriense que tem a melhor chance de levar o “título não-oficial” do torneio, recebendo o Municipal para a disputa da semifinal em jogo único em casa, no Ginásio Poliesportivo Aracy Machado, na próxima terça-feira, 2/12, às 19h (horário de verão de Brasília).
O sucesso do time do litoral fluminense não é por acaso e não deve ficar por aí. Cabo Frio foi também campeão dos Jogos Abertos do Interior do estado, já coleciona nove títulos em três anos de trabalho e vem garimpando novos talentos através do projeto Novo Cidadão, idealizado por Eliseu Pombo, secretário de Esporte da prefeitura de Marquinhos Mendes. O projeto social consiste em escolinhas esportivas livres nas praças da cidade, com um professor e assistente. O basquete ganhou duas quadras, e Marquinhos, treinador do time, e Sérgio Macarrão, diretor técnico, participam das aulas.
“Todas as crianças são tratadas de forma igual, recebem o uniforme, as mesmas aulas, mas quando uma começa a dar pinta de jogador, trazemos para o ginásio para dar uma atenção especial. É importante ter um professor com histórico de basquete, direcionando estas aulas para o basquete de competição”, diz Macarrão, que começou seu trabalho em Cabo Frio com escolinhas pagas, dando bolsas a quem “tivesse jeito” e não pudesse pagar, até formar sua primeira equipe para disputar o campeonato juvenil. Em 2006, o time venceu sua primeira competição, a Copa Integração, e no ano passado, foi campeão estadual juvenil. O time infantil, estreando no Estadual neste ano, está nos playoffs.
Hoje, são mais de 200 crianças jogando basquete nas praças, algo impensável em uma cidade onde o futsal reina como esporte predominante - o time do Cabo Frio/Macaé/Cimed tem tradição na Liga Futsal, e o belo Ginásio Poliesportivo foi construído exatamente para levar seus jogos. O Novo Cidadão ajudou a mudar a cultura da cidade e veio complementar o projeto Segundo Tempo, de aulas esportivas nas escolas após o horário de estudo. “Nem todos os colégios têm aulas de basquete. Até nas praças tínhamos resistência da galera do futsal, que quebrava as tabelas para não podermos jogar. Foi um trabalho para convencer que duas ou três horas de escolinha não iriam atrapalhar a pelada”, conta Macarrão.
Mas engana-se quem acha que Cabo Frio não tem vocação para o basquete. Segundo o diretor técnico, a cidade sempre teve peladas tradicionais, e atualmente a liga municipal é mais disputada até do que o esvaziado Estadual. “Os times levam o municipal a sério, trazem caras do Rio só para jogar. O time de São Pedro da Aldeia tem o Leandro e o Carlinhos, do Club Municipal, e o nosso pivô (Gil); o Rafinha, do Saldanha da Gama, está inscrito pra, se no caso de tiver uma folga lá no Espírito Santo, vem correndo para jogar. Aqui acontece isso, você pega dessas redondezas, de Arraial do Cabo, Búzios, e coloca para jogar aqui”, explica Macarrão.
A liga deu origem ao time adulto do Cabo Frio. O objetivo do time no ano era disputar os Jogos Abertos e o campeonato de aspirantes, mas o time ficou esvaziado para a segunda competição, com jogadores espalhados em outras equipes. “Há nove times na nossa liga municipal, mais do que no Estadual. Nós pegamos alguns destes jogadores e passamos a dar treino. A liga ajuda a mantê-los em condições de jogo”, diz Marquinhos, ex-Friburgo, trazido de Araruama para treinar Cabo Frio. Com o Estadual reduzido e times cheios de mescla entre juvenis e aspirantes, Macarrão viu a oportunidade de entrar no campeonato: “Tudo o que a gente conquistou aqui veio com resultados primeiro. O basquete está procurando seu espaço, a cultura aqui é do futsal. Se montássemos um time para entrar e tomar porrada, não adiantaria; não temos condições de entrar em um Nacional ainda. Mas quando vi as condições deste campeonato, fui atrás da prefeitura e do patrocínio da Sika, pois dava para entrar com um investimento menor”.
A equipe é integrada ao projeto. Jogadores campeões juvenis em 2007, Boris e Leandro também dão aulas e treinos nas praças. “O sucesso do time é bom para o projeto. A gente sente que a criançada fica mais empolgada e incentivada a participar ao nos ver jogar”, diz Leandro.
Chegar à semifinal do Estadual e mandar o jogo em casa contra o Club Municipal é um feito a mais para Cabo Frio, que agora sabe que está sob os olhos da cidade. O prefeito prometeu comparecer ao jogo da próxima terça, o representante regional da Sika quer levar Macarrão para conhecer os diretores da empresa no país e a montagem de um time forte para a disputa dos Jogos Abertos Brasileiros passa por uma classificação à final do Carioca, contra o Flamengo. Nada mal para um time que teve apenas duas semanas de treino antes da competição e perdeu quatro jogadores por lesão durante a disputa. “Temos um trabalho de fisioterapia muito bom, profissional mesmo, com o Thiago Bassiado (preparador físico) e os doutores Amauri e Cíntia (da Clínica Corpo em Movimento), que recuperaram quatro jogadores muito importantes, senão teríamos problemas”, diz Marquinhos.
Passados oito jogos, o treinador reconhece no ataque os maiores problemas a serem melhorados para a semifinal. “Nossa defesa tem dado resultados, apesar do pouco tempo de treino. O rebote melhorou bastante com a chegada do Gil, que foi meu jogador em Friburgo. Precisamos melhorar a nossa transição, velocidade de contra-ataque, e saber variar mais o jogo interno com o jogo fora”, enumera. Derrotar o Municipal e chegar à decisão já seria um título, mas se engana quem acha que o Cabo Frio vai “se fazer de morto” se for às finais contra o Flamengo: as equipes nutrem uma rivalidade desde o ano passado, quando o time juvenil derrotou o Rubro-Negro nos playoffs. “O Boris deu uma enterrada em cima do pivô deles com o primeiro jogo já decidido, o cara empurrou, deu uma confusão aqui”, conta Macarrão.
No torneio adulto deste ano, o Fla venceu ambos os jogos com boa vantagem, mas sempre com alguma tensão entre os times. “O Marcelinho não gosta de ser tocado, de ser marcado em cima, então ele joga cotovelo, joga com vontade, grita, e aí é que acaba com o jogo mesmo”, diverte-se Macarrão, tio da dupla de irmãos Machado do Flamengo. No jogo de volta, na Gávea, uma falta dura de Minhão em Hélio resultou em uma pequena confusão e na expulsão do atleta de Cabo Frio e do armador Fred, do Fla, que teria revidado com um empurrão. “A gente entrou quente aqui, eles perderam um pouco a cabeça e esperaram levar o jogo lá para dar o troco”, conta Boris. Nas duas partidas, o Rubro-Negro só disparou no placar no segundo tempo, e na Gávea, Cabo Frio fez o maior número de pontos sofrido pelo campeão nacional na competição: 65.
O jogo de terça, porém, é o que importa no momento. Afinal, o Club Municipal não chega à final do campeonato desde os anos 70 e também está motivado. “Colocamos para os jogadores a importância que tem para Cabo Frio e para os nossos projetos. Pode marcar treino a hora que for, que eles aparecem. Se perdermos, não vai ser por falta de treino ou vontade. Quem não vai querer chegar numa final contra o Flamengo? É uma vitrine”, conclui Macarrão.
Adriano Albuquerque
Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete em geral.
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Comentário por marcel.qpereira — November 28, 2008 @ 4:39 pm
Maravilha de trabalho. O basquete brasileiro precisa de muitas e muitas iniciativas assim, pelo país inteiro, para se recuperar e voltar a ser grande.
O relato do sucesso das escolhinhas nas praças mostra como o basquete tem apelo e capacidade de atrair. E seria assim no Brasil inteiro.
O trabalho do Iguaçu Basquete, assim como o do Cabo Frio, merece ser exaltado. São esforços humildes e totalmente carentes de recursos.
O trabalho da Liga Norte de basquete também é um grande exemplo.
Enquanto isto, se crê que só com Campeonato Paulista e uma Liga Nacional forte já basta para o basquete se reerguer. Não basta!
É preciso colocar o Brasil inteiro para jogar basquete!!
É preciso levar os times do Sudeste (os paulistas, o Flamengo, o Minas) para jogar no Nordeste.
Óbvio que uma Liga Nacional forte é fundamental também, mas o Brasil precisa de outros campeonatos.
O basquete brasileiro precisa de “nacionalização” da prática (por todo o país) e de mais intercâmbio com o exterior.
Só que ninguém demonstra querer isto, nem a CBB nem os clubes.
Comentário por marcel.qpereira — November 28, 2008 @ 4:42 pm
Queria fazer um desafio a vocês, que são, de longe, o trabalho profissional sobre basquete mais sério que existe neste país:
Gostaria de saber se vocês saberiam me dizer quais são os clubes de basquete em atividade hoje no Norte e no Nordeste e quais estados nestas regiões tem um campeonato sendo disputado.
Gostaria de ver uma matéria sobre este assunto.
Comentário por Adriano Albuquerque — November 29, 2008 @ 10:39 am
Marcel, sinceramente, não sei dizer, vou procurar me informar melhor. Sei que a III Supercopa Nordeste está para acontecer, se não me engano no ano que vem, com equipes de Sergipe, Alagoas, Bahia, Pernambuco, Paraíba, Rio Grande do Norte, Piauí, Ceará e Maranhão. Para mais detalhes, confira http://www.supercopanordeste.com/index.htm
abraço
Comentário por Paulo Roberto — November 29, 2008 @ 12:03 pm
Tem Campeonato Paraense adulto no Norte, Capixaba (mas aí é Sudeste), e a Supercopa de Nordeste promove um Baiano, é o que eu sei
Comentário por marcel.qpereira — December 1, 2008 @ 9:35 am
Adriano e Paulo,
Obrigado pelas informações. Visitei o site da Copa Nordeste, que não conhecia, fiquei muito feliz em ver o resultado.
Creio que falta muita divulgação também. Estive procurando informações na internet sobre a Copa Sul-Brasileiro e não achei praticamente nada. Só que o Joinville tinha sido bicampeão. História, participantes, etc, não achei nada mais.
Acho que o mesmo pode ser dito da Liga Norte, que embora seja amadora e não profissional merceia mais divulgação.
O basquete braseiro precisa de uma “Copa do Brasil”, que poderia acontecer em módulos, nos moldes do que é feito na Liga das Américas. Sei que é difícil a viabilidade financeira, a própria 2ª edição da Liga das Américas está sendo um parto para sair … mas precisa ser tentado.
Liga Nacional forte e Paulista forte são muito importantes, mas o basquete brasileiro se quiser ser grande não pode viver só disso. Tem que mobilizar mais gente jogando, tem que levar as principais forças para jogar no Norte, no Nordeste, no Centro-Oeste.
O basquete tem muito mais apelo do que o vôlei no Brasil, e é um absurdo que não consiga ser mais forte que o vôlei.
É culpa da CBB também. Mas não é só culpa dela não.
Comentário por Adriano Albuquerque — December 1, 2008 @ 10:38 am
Marcel, concordo contigo em gênero, número e grau. assim como o povo não pode depender somente do governo, o basquete não pode ficar apenas a mercê de sua confederação. todo mundo tem de fazer um pouco mais e a “revolução” tem de partir de quem vive e faz basquete, não de sua elite acomodada. uma Copa do Brasil seria excelente
pode crer que nós do BB acreditamos nisto e queremos aumentar nossa participação no basquete nacional, e conforme ganharmos condições para tanto, teremos novidades. no momento, temos poucos corpos nas regiões Norte e Nordeste para acompanhar a situação de perto, mas estamos abertos a novos colaboradores nortistas e nordestinos dispostos a dar uma força na área.
Comentário por marcel.qpereira — December 1, 2008 @ 2:47 pm
Adriano,
pode ter certeza que eu acredito no poder “nosso”.
exatamente por acreditar e confiar no BB, e de ser leitor atento do site, que eu vim até aqui deixar a idéia.
estou geograficamente muito distante destes eixos. mas, como uma últrima sugestão, gostaria de ver matérias (quem sabe entrevistas por e-mail possam ser conseguidas) sobre o esforço da Supercopa do Nordeste e da Liga Norte em existir e em manter a chama do basquete acesa.
Infelizmente não posso contribuir mais do que isto com o trabalho de vcs. Mas ficarei na torcida.
Obrigado pelo excelente trabalho.
Marcel