Publicado por João Guilherme
O Campeonato Paulista começou a todo vapor, com jogos equilibrados e de bom nível técnico. Para saber um pouco mais da competição e sobre seu time, o BasketBrasil entrevistou o técnico do Paulistano, João Marcelo Leite, que é considerado um dos melhores treinadores da nova geração do basquetebol brasileiro. Apesar de ter apenas 35 anos, João Marcelo já tem vasta experiência como treinador, chegando a liderar o Paulistano a um surpreendente quarto lugar no último Campeonato Paulista Masculino. Com muita tranquilidade e simpatia, o jovem treinador respondeu às perguntas do BasketBrasil e falou sobre vários assuntos. Confira na íntegra a entrevista.
1- Como veio esse interesse em ser técnico?
Eu comecei, como a maioria de todos os técnicos, jogando. Nasci em Franca, trabalhei na equipe profissional de Franca com o Hélio (Rubens) por dois anos, mas não consegui ter uma carreira de jogador como eu gostaria. Enquanto eu jogava pelo time adulto de Franca, cursava Educação Física na faculdade, aí eu recebi um convite para treinar a categoria infantil de Franca, aceitei e passei a gostar de trabalhar como treinador, isto ajudou na minha formação e desde então eu sou técnico.
2- Conte um pouco sobre sua trajetória como treinador
Como eu falei, comecei em Franca, treinando a categoria infantil e passei por praticamente todas as categorias de base de Franca, fiquei onze anos lá. Em 2000 eu fui treinador do time juvenil de Franca e assistente do Daniel Watffy na equipe principal, tive a felicidade de trabalhar com uma geração muito talentosa, cujo maior expoente é o Anderson Varejão. Em meados de 2001, a convite do Tom Zé, eu fui para Araraquara, iniciamos um trabalho muito forte nas categorias de base e eu fui assistente dele no time principal, onde fomos vice-campeões paulistas duas vezes seguidas. Na base eu consegui três títulos com a categoria juvenil e em 2005 fui promovido para técnico do time principal de Araraquara e fiquei por lá até 2006. Após isso treinei o Saldanha da Gama durante o Nacional, mas foi por pouco tempo e aí recebi o convite do Paulistano e estou na minha segunda temporada aqui.

No canto direito, de azul, João Marcelo comanda atividade do Paulistano
3- O que você acha da nova geração de treinadores brasileiros?
Esta geração é muito boa. Os treinadores estão buscando conhecimento e isso é fundamental para evolução do basquete. Claro, cada um tem suas convicções, seu jeito de treinar, mas eu vejo que os treinadores, não só os jovens, estão procurando se reciclar, vamos dizer assim. Isso é primordial, nós vemos treinadores fazendo estágios fora do país, participando de clínicas de basquete e procurando acompanhar a evolução do basquetebol. Sem dúvida nenhuma que os treinadores mais novos têm alguma vantagem, pois lidam melhor com a tecnologia, que é aliada neste caso, mas é claro que os treinos mais experientes também têm muito a nos ensinar. O importante é que os técnicos procurem sempre estar se reciclando e busquem incessantemente o conhecimento.
4- Como você avalia o trabalho do Moncho na seleção brasileira?
É difícil avaliar pelo tempo que ele teve. A primeira coisa que eu gostaria de falar é sobre o critério de escolha do nome dele, existem alguns pontos que eu não entendo muito bem, qual foi o critério de se trazer um técnico estrangeiro e qual o critério de tê-lo escolhido, visto que ele (Moncho) não estava em atividade. Pelo pouco tempo que ele teve, eu não tenho criticas a fazer, acho que ele introduziu algumas coisas interessantes, ele trouxe um basquete com uma mentalidade mais coletiva, “atualizou” o esquema da seleção em alguns aspectos. Mas, é lógico, ele teve pouco tempo, se não me engano ele só ficou dois ou três meses aqui no Brasil fazendo suas anotações e avaliações, isto é pouco. Porém, eu vejo que o Moncho é o que tem menos culpa nisso tudo. Da forma que se fez, em optar por um treinador estrangeiro, deveriam trazê-lo como antecedência para que ele visse os campeonatos regionais, o campeonato nacional, para que ele conhecesse os jogadores e a cultura do basquetebol brasileiro e isto não foi feito. Sem essa base fica complicado, mas eu acho que ele fez o melhor trabalho possível, dentro das limitações impostas. Na verdade, isto envolve mais a organização dos dirigentes do que a capacidade técnica do Moncho.
5- Qual a sua expectativa para o Campeonato Paulista?
Olha, este Paulista será um campeonato mais difícil do que foi nos últimos anos. São 15 equipes e eu não tenho dúvida que, pelo menos, dez times estarão brigando pelas oito vagas nos playoffs. Eu vejo o Paulistano com o objetivo inicial de estar entre essas oito equipes classificadas para a próxima fase e depois pensar em algo maior. Eu acredito que nós temos capacidade de repetir o desempenho que tivemos no último campeonato, quando fomos às semfinais e brigamos de igual para igual com os times mais fortes do estado.
Varejão foi um dos talentos revelados por João Marcelo
6- Como foi a preparação do Paulistano? Quais são as novidades?
Com a boa performance coletiva e individualmente do nosso time na última temporada, eu sabia que seria muito difícil manter a base, visto que todos os jogadores, sem exceção, tiveram seu trabalho reconhecido e valorizado. Por essa questão e por causa de orçamento, nós perdemos três jogadores importantes, o Fúlvio, que era nosso armador principal, e a dupla de garrafão, o Tiagão e o Bruno Fiorotto. Nós perdemos até mais do que eu imaginava, porque fazer duas ou três reposições de uma temporada para outra é até normal, mas nós tivemos que contratar cinco jogadores para formar o elenco. Chegaram o Fransergio e o Rafael Mineiro, ambos vindos de Franca, o Bruno Pira, que estava nos Estados Unidos, o Atílio, que estava em Bauru e o Tiaguinho, que veio de Sorocaba. Da base do ano passado estão o Fernando Pena e o Dedé, dois grandes jogadores, além do Thomas e do Fusco, que estão conosco desde a Supercopa.
7- Qual a sua avaliação dos dois primeiros jogos do Paulistano?
Contra São José nos tivemos dois tempos distintos. No primeiro tempo nós conseguimos fazer o nosso ritmo de jogo, impomos uma defesa forte, pressionada, e não nos intimidamos com a torcida contra. Só que no segundo tempo tudo mudou, o São José nos pressionou e nós sentimos isso, deu uma pane no time, não conseguimos repetir o foco do primeiro tempo e, o principal, nosso rendimento defensivo caiu bastante. No primeiro tempo nós tomamos apenas 35 pontos, mas no segundo sofremos 55 e São José conseguiu a vitória com todos os méritos. Contra a Internacional de Santos nós melhoramos em todos os aspectos, tivemos um primeiro tempo um pouco complicado, mas sempre nos mantivemos na liderançae no segundo tempo tivemos uma grande atuação ofensiva, o ataque fluiu bem. Nós também soubemos aproveitar o mando de quadra, que é muito importante. Este é um time muito jovem, então é normal ainda oscilar as vezes, mas eu acredito que em quatro ou cinco jogos nós já estaremos com mais consistência e um bom padrão de jogo.
8- Recentemente, foi criada a Liga Nacional. Você acredita que essa liga pode finalmente fortalecer o basquete brasileiro?
Eu acredito. Essa é a minha esperança e de todas as pessoas que trabalham e gostam do basquete. Nós precisamos resgatar nossa condição, ter uma credibilidade maior no basquetebol doméstico para que venha o incentivo de patrocinadores e empresas que acreditem no basquete. Mundialmente a modalidade é muito forte e aqui no Brasil nós perdemos muita força, não participamos dos Jogos Olímpicos e, lógico, não é só isso. Tudo depende da organização desta Liga, se nós tivermos organização dentro e fora da quadra nós voltaremos a ter um basquetebol forte nacionalmente. Assim o público vai voltar a prestigiar, as empresas voltarão a ter interesse no basquete, então tudo depende da organização e do planejamento.
9- Durante as Olimpíadas, o Kobe Bryant declarou que os brasileiros dão muita atenção ao futebol e isso acaba prejudicando outras modalidades, incluindo o basquete. Você concorda com isso?
Olha, isso é uma questão cultural. Acho que nós não temos que ter como referência o futebol, já que ele está em outro patamar aqui no Brasil. Nós nunca podemos comparar as outras modalidades com o futebol. Voltando para a questão do basquete, mundialmente ele evoluiu e no Brasil ele não apenas estacionou, mas regrediu. Você vê que hoje os modelos que você tem, nem vou falar da NBA, que é uma coisa totalmente diferente da nossa realidade, mas a Euroliga pode ser uma referência, nós estamos vendo que alguns jogadores estão trocando a NBA pela Europa. Países como Espanha, Itália e a própria Argentina devem ser exemplos para nós pegarmos. Com uma Liga forte, organização e planejamento tudo irá melhorar, as receitas dos clubes irão crescer, o nível técnico será melhor e nós voltaremos a ter destaque internacional como em décadas passadas.
João Guilherme
Está no BasketBrasil desde 2005 e escreve sobre basquete nacional e internacional.
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