Publicado por Paulo Roberto
Nesta sexta-feira às 23h (horário de Brasília), o Phoenix Suns de Leandrinho fará seu segundo jogo da temporada televisionado para o Brasil (no canal a cabo ESPN Internacional), recebendo o Miami Heat no US Airways Center na primeira visita do ala Shawn Marion ao ginásio que foi sua casa por oito anos e meio, até ser trocado em fevereiro passado na negociação que trouxe para o Arizona o veterano superpivô Shaquille O´Neal. Será uma grande chance também de ver ao vivo o craque Dwyane Wade em ação no duelo com Shaq, os dois lideraram o time da Flórida a um título inédito da NBA em 2006, com D-Wade sendo eleito o melhor jogador das finais dois anos atrás.
O ala-armador brasileiro Leandrinho guarda boas lembranças de Marion, que durante três temporadas foi o maior pontuador do Suns e em seis campeonatos foi o principal reboteiro da franquia, facilmente ele será um futuro candidato ao “Anel de Honra” do Phoenix, uma honraria concedida aos grandes nomes da história do clube roxo-e-laranja.
“Pelo que eu ouvi e vi nas ruas (de Phoenix), todos ficaram tristes quando ele foi embora. Todo mundo o amava”, disse Leandro ao jornal Arizona Republic elogiando o atleticismo do “The Matrix” Marion.
Mas o grande saltador jamais se sentiu devidamente reconhecido por sua longa folha de serviços prestados ao Suns, estava à sombra dos outros astros do time Steve Nash e Amare Stoudemire, por isso chegou a pedir para ser trocado, em meio aos rumores sobre a falta de interesse do Phoenix em estender seu contrato, que termina em junho de 2009 com um salário garantido de US$ 17,2 milhões por esta temporada final de vínculo. Marion foi estatisticamente um dos jogadores mais produtivos da história do Suns, é o segundo colocado de todos os tempos da franquia em jogos, rebotes e roubos de bola atrás apenas de Alvin Adams, e o quarto maior pontuador, atrás de Walter Davis, Kevin Johnson e Adams.
A saída do Matrix para Miami foi confirmada quatro meses depois do pedido público por uma troca, e o Suns decidiu promover uma mudança total no seu estilo de jogo incorporando o gigante O´Neal. O desgaste na parte final de seu relacionamento com a direção do Suns não apagou as boas lembranças da rica trajetória de Marion no clube do Arizona, foram quatro seleções para o Jogo das Estrelas, anos consecutivos disputando os playoffs, e uma boa reputação deixada entre os companheiros de equipe e a comunidade da cidade. O lateral se afastou temporariamente das atividades do Heat para ir ao funeral de seu tio-avô, mas deve jogar normalmente hoje, antes de sair de Miami ele disse ao jornal South Florida Sun-Sentinel que tinha deixado o Arizona para trás numa boa.
“Eu amo os fãs em Phoenix e tive ótimos oito anos e meio lá. Eu fiquei triste por partir, tanto quanto eles ficaram tristes em me ver partir, mas é o que é, isso é um negócio”, declarou Marion.
Para o restante dos EUA, a faceta mais importante do jogo de hoje será o reencontro de Shaq com o Heat, o rompimento nesse caso foi muito menos amigável, com trocas de farpas entre o pivô e ex-técnico e atual presidente Pat Riley.
“Há muita especulação sobre como terminou, mas está tudo bem. Não há realmente ressentimentos. O Heat é uma grande organização. As pessoas dizem que os negócios têm que ser resolvidos para as coisas voltarem aos trilhos, eles fizeram o que tinham de fazer, eu entendo”, afirmou O´Neal, que acabou afundando com o Miami devido a uma série de lesões. Por isso o pivô disse esperar uma recepção com vaias da torcida na Flórida quando for jogar lá contra o Heat em março.
Marion, por outro lado, deixou muito mais carinho do que mágoas no Phoenix, o time que o draftou. “Será uma sensação estranha. Ele teve uma das maiores carreiras no Suns em todos os tempos. Eu imagino que ele teria uma grande ovação aqui. Se não for muito aplaudido, eu ficaria extremamente desapontado”, comentou Steve Nash.
O ala está precisando mesmo de uma alegria, está vindo de um funeral na família, jogando em um time inferiorizado na classificação (7V-8D, oitavo colocado na Conferência Leste), e suas médias são as mais baixas desde a temporada de estréia na NBA, com 12,4 pontos e 8,8 rebotes por jogo. Com 30 anos de idade, ele terá dificuldades para conseguir um grande contrato no mercado de agentes livres em julho próximo, embora ainda esteja esperando que algum time lhe pague um salário acima dos US$ 10 milhões/ano. As memórias de suas grandes enterradas, cestas de três pontos e defesa ativa em todas as posições ainda estão frescas na memória da torcida do Phoenix (11V-5D), que é favorito para conseguir a quarta vitória consecutiva, apesar do grande talento de Wade.
“Ele teve aqui uma dessas carreiras que, em termos de números, muito poucas pessoas na liga conseguiram compilar números assim nessa mesma época. Ao mesmo tempo, você tem a sensação que ele era pouco reconhecido. Talvez alguma parte disso era porque ele se sentia subvalorizado. Todos nós reconhecíamos o que ele estava fazendo. Os números eram astronômicos da maneira que ele cobria a folha de estatísticas. Pode não ter sido apreciado tanto quanto se outra pessoa fizesse o mesmo, mas ele era reconhecido sim. Não importa o que aconteceu, se no final o relacionamento ficou meio desgastado, mas quando ele estava nos vestiários tínhamos sempre tempo bom. Ele sempre estava ali para apoiar um companheiro, era um dos caras menos egoístas. Shawn era meu cara, ainda é”, comentou o ala-armador Raja Bell, lembrando de Marion como um amigo bastante brincalhão na intimidade da equipe, embora tenham pipocado boatos de que ele e Stoudemire estavam brigados.
Para tentar preencher o vazio na lateral deixado pela saída de Marion, embora Shaquille O´Neal esteja jogando bem ultimamente dando ao Suns a vantagem por ter feito a troca, o gerente geral Steve Kerr foi buscar no Golden State Warriors o atlético ala Matt Barnes. Por um acaso do destino, o novo contratado do time tornou-se um amigo importante para Leandrinho nessa fase difícil da volta às quadras após a morte de sua mãe, Dona Ivete Barbosa. Barnes lembrou ontem que há exatamente um ano, no feriado de Ação de Graças, perdeu sua mãe e melhor amiga para o câncer. Agora ele está muito próximo de Leandro, servindo de conselheiro, e até mandou fazer pulseiras com o nome de Dona Ivete escrito para distribuir para todos os jogadores da equipe.
Barnes vem alertando o brasileiro para “não entrar na fossa, não se fechar dentro de si mesmo, botar para fora os sentimentos”. Antes de cada jogo, o ritual de Barnes inclui rezar pela mãe e beijar as pulseiras vermelhas com o nome Ann gravado. Depois de cada cesta de três que faz, o ala ergue três dedos para cima e manda um beijo para o céu, igual fez quando acertou o triplo da vitória nos últimos segundos sobre o Oklahoma City Thunder na terça-feira à noite.
“Ela amava quanto eu chutava de três. Essa era a parte favorita dela”, lembrou Barnes.
No ano passado, a família Barnes antecipou a comemoração do Natal para o feriado de Ação de Graças, porque já sabiam que a matriarca não viveria até dezembro, e a casa deles em Sacramento foi decorada especialmente para Ann, liberada durante seis horas do hospital para a despedida. Apenas três semanas antes tinha sido diagnosticada uma forma violenta de câncer que atingiu os rins, pélvis, quadril, mama e pulmão, foi uma perda repentina.
“Ela tentou ser tão positiva e tentou reunir toda sua energia. Não podia mais comer nada. Ela tentou se levantar e andar, mas não podia. Isso me matava porque eu sabia que logo isso iria levá-la”, recordou-se Barnes emocionado.
Outra ironia do destino é que Barnes estava jogando pelo Warriors numa vitória em Phoenix apenas quatro horas antes da morte da mãe. Dias antes ele havia abandonado uma viagem de cinco jogos do time para ficar com ela ao lado da cama no hospital, e uma numa determinada noite a mãe o encorajou a voltar a jogar.
“Ela me disse o quanto estava orgulhosa de mim e que era para eu tomar conta de todos. Ela me disse que ia sentir minha falta. Ouvir isso foi difícil de engolir”, afirmou Barnes, o mais velho de três filhos.
“Tudo ficou borrado para mim depois disso. Toda a minha família se virou para mim para eu ser a rocha e eu não tinha ninguém a quem recorrer. Eu tinha me manter tudo lá dentro e dizer que tudo ia ficar bem. No fundo, eu não estava bem. Estava sempre encorajando (os outros), então nunca tive uma chance de chorar. O que digo a Leandro agora é que compartilhe seus sentimentos, eu estarei sempre aqui se ele precisar”, completou Barnes.
Aos poucos Leandrinho vai buscando reencontrar seu ritmo de jogo depois do falecimento de Dona Ivete no último dia 13 de novembro, já marcou nove pontos na vitória sobre o Minnesota.
“Você pode dizer que Leandro Barbosa está passando por um tempo difícil para imergir-se emocionalmente de volta no basquete. Foi um retorno complicado, mas um necessário primeiro passo para ele”, escreveu em seu blog o cronista do AZCentral.com Paul Coro.
Paulo Roberto
Fundou o BasketBrasil em 2004 e escreve sobre basquete em geral.
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