Coluna do PR no Jornal Placar: O exemplo de Lance Armstrong e o braço forte de Nenê
Segunda coluna semanal do Basketbrasil por Paulo Roberto Araujo Filho, publicada editada no Jornal da Placar (www.placar.com.br) nesta quarta-feira (19/11/2008), versão na íntegra a seguir:
Lance Armstrong, ciclista americano sete vezes campeão da Volta da França, é o mais ilustre sobrevivente de um câncer testicular no esporte mundial. “A Volta do Ano”, esse é um título apenas simbólico que o pivô brasileiro Nenê merece ter por seu retorno ao Denver fazendo seu melhor início de temporada na NBA após superar essa grave doença. O lance dele é o braço forte (não resisti ao trocadilho com a tradução do nome de Armstrong), Nenê continua sendo mais um enterrador e um brigador debaixo da cesta do que um jogador de técnica refinada ou ganhador de títulos, mas sua história de recuperação das cinzas à titularidade deveria ser mais reconhecida no Brasil.
Infelizmente, ele acabou caindo na vala comum das críticas aos que não defenderam a Seleção de basquete no Pré-Olímpico. Em Pequim, questionaram seu “patriotismo” até numa coletiva com o companheiro de Denver Carmelo Anthony, que entrou na onda por não saber detalhes do processo pós-operatório do brazuca, depois da cirurgia em janeiro vieram sessões de quimioterapia e uma lesão no púbis como efeito colateral do esforço para voltar às quadras. Mas agora ele está com tudo, são oito jogos consecutivos marcando mais de 10 pontos e o melhor índice de aproveitamento de toda a liga nos arremessos de quadra (64,1%), está até finalizando bem com as duas mãos a ponto de ser chamado de ambidestro pelo técnico George Karl.
Polêmicas à parte, a Seleção ainda precisa de um pivô forte no garrafão, e é intrigante pensar no revezamento que o Brasil pode fazer com Nenê, Tiago Splitter e Anderson Varejão. Quem sabe até uma formação mais alta com os três grandões de 2,11m na quadra ao mesmo tempo dê o que falar, com Varejão jogando de ala, para provar que melhorou mesmo seu arremesso de fora do garrafão. É um trunfo na manga para encarar adversários internacionais de peso como a Grécia, com um rebote mais seguro para os rápidos jogadores do perímetro como Leandrinho, Alex e Marcelinho Huertas explorarem seus talentos ofensivos chutando ou infiltrando.
A CBB precisa buscar um compromisso deles para o novo ciclo olímpico desde já, pensando na Copa América 2009. Mas sem essa de cobrar que algum deles seja o líder, o sentido coletivo tem de prevalecer. Líder isolado bom com a camisa amarela é o Armstrong na Volta da França, no basquete todos são profissionais à altura para assumir a responsabilidade de forma compartilhada. Por falar nisso, o ciclista Lance está falando em correr a prova mais famosa do mundo no próximo ano. Talvez com uma mudança de rumos na gestão do basquete nacional, Nenê também se disponha a coroar sua recuperação ajudando a Seleção a dar uma volta por cima com uma boa classificação para o Mundial de 2010. Quem é sobrevivente que não desista nunca.